Vespas parasitoides na horta: como reconhecer, proteger e atrair

Uma das vespas parasitoides pousada numa flor de coentros, junto a couves-galegas numa horta tradicional portuguesa

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As vespas parasitoides são insetos minúsculos e inofensivos para as pessoas, que põem os ovos dentro ou sobre outros insetos, como pulgões, lagartas e moscas-brancas, e assim os eliminam de modo biológico. Se as reconhecer, proteger e atrair, as vespas parasitoides passam a trabalhar de graça na sua horta, 24 horas por dia, sem incomodar ninguém e sem deixar resíduos.

Muita gente vê uma vespa a pairar sobre as couves ou encontra pulgões inchados e castanhos e pensa logo no pior: uma praga nova ou uma doença. Na verdade, é quase sempre o contrário, e é isso que vamos esclarecer neste artigo, com sinais fáceis de identificar e medidas práticas para os aproveitar.

O que são vespas parasitoides e porque não são perigosas

As vespas parasitoides são um vasto conjunto de famílias de himenópteros, o grupo que inclui também as abelhas, as vespas comuns e as formigas. A diferença está na forma de vida: a fêmea adulta procura outro inseto, o hospedeiro, e deposita os ovos dentro ou sobre ele. Quando o ovo eclode, a larva alimenta-se do hospedeiro, que acaba por morrer. É por isso que se chamam parasitoides e não simples parasitas: um parasita costuma deixar o hospedeiro vivo, o parasitoide mata-o sempre.

Não picam as pessoas. As espécies que encontramos nas hortas medem entre meio milímetro e poucos milímetros, e o ovopositor, o aparelho com que põem os ovos, é fino e delicado demais para perfurar a pele humana. Não constroem ninhos, não defendem território e não mostram interesse por nós nem pela nossa comida. As vespas parasitoides que realmente interessam ao horticultor são, por isso, tão inofensivas para nós como as joaninhas.

Como funciona o ataque. A fêmea localiza o hospedeiro pelo cheiro, tanto o do próprio inseto como o das plantas que ele está a danificar. Depois, com o ovopositor, injeta um ou mais ovos. A larva desenvolve-se por dentro, consome o hospedeiro e só então se transforma em pupa. Quando o adulto emerge, sai por um pequeno orifício redondo e a fêmea começa de imediato a procurar novos hospedeiros.

Porque são tão valiosas. Ao contrário de um inseticida, as vespas parasitoides procuram a praga ativamente, mesmo quando ela está escondida na face inferior das folhas, dentro de um enrolamento ou no interior de uma galeria. Além disso, cada espécie costuma atacar apenas um grupo restrito de hospedeiros, por isso não prejudicam as abelhas, as joaninhas nem as minhocas. Quando a praga diminui, as vespas parasitoides também diminuem, e o equilíbrio mantém-se sem qualquer intervenção sua.

Vespas parasitoides junto a piolhos mumificados na folha de um pimenteiro em vaso numa varanda
Cada piolho inchado e dourado é uma múmia: lá dentro desenvolveu-se uma larva de uma das vespas parasitoides

Como reconhecer as vespas parasitoides em ação na horta

Piolhos mumificados. É o sinal mais frequente. No meio de uma colónia de piolhos (pulgões) verdes ou pretos, aparecem de repente exemplares inchados, de cor bronze, dourada ou castanha, com aspeto de papel e colados à folha. Cada um é uma múmia: lá dentro cresceu uma larva de vespa parasitoide e o adulto sairá por um orifício redondo. Se vir estes sinais, não pulverize: as vespas parasitoides já estão a limpar a colónia por si.

Lagartas da couve com casulos amarelos. Nas couves, é frequente encontrar uma lagarta lenta, mole e quase parada, rodeada de pequenos casulos amarelos do tamanho de um grão de arroz. Não são ovos da lagarta nem sinal de doença: são os casulos de Cotesia glomerata, uma das vespas parasitoides mais úteis para quem cultiva couves. As larvas já saíram do corpo da lagarta, que não tardará a morrer. Deixe os casulos onde estão: cada um é uma futura vespa que vai atacar outras lagartas.

Mosca-branca com pupas escuras. Na face inferior das folhas, entre as pupas esbranquiçadas da mosca-branca, aparecem algumas mais escuras. Essas pupas foram parasitadas, muitas vezes por vespas do género Encarsia, e já não vão produzir mais moscas. É um sinal discreto, mas muito encorajador: significa que as vespas parasitoides chegaram antes de a infestação sair do controlo.

Os próprios adultos. Com paciência, vê-se um inseto negro ou acastanhado, esguio, de antenas compridas, a caminhar de forma nervosa sobre as folhas, a tocar nos pulgões com as antenas ou a curvar o abdómen. Medem poucos milímetros e é fácil confundi-los com mosquitos. Uma boa lupa ajuda muito: esta lupa de bolso com luz LED cabe no bolso, tem boa ampliação e permite confirmar o orifício de saída nas múmias e os detalhes das antenas sem arrancar a planta. Observe durante cinco minutos e perceberá que as vespas parasitoides se comportam de forma muito diferente das moscas.

Casulos amarelos de vespas parasitoides junto a uma lagarta numa folha de couve-galega em canteiro elevado
Os casulos amarelos junto à lagarta mostram que as vespas parasitoides já fizeram o seu trabalho: deixe-os ficar na folha

As principais espécies de vespas parasitoides numa horta

Existem milhares de espécies, mas poucas são relevantes para quem cultiva legumes. Estas são as que mais vai encontrar, ou poderá vir a encontrar, nos seus canteiros.

Aphidius (contra os piolhos). É o grupo mais importante para a horta. O adulto, castanho-escuro e com cerca de dois a três milímetros, ataca várias espécies de piolhos, incluindo alguns dos que infestam couves, favas, pimenteiros e alfaces, e deixa as múmias douradas que descrevemos acima. Em tempo ameno, o ciclo completo demora cerca de duas semanas, o que lhe permite acompanhar o crescimento de uma colónia de piolhos. As vespas parasitoides deste género aparecem espontaneamente quando há flores por perto e não houve tratamentos agressivos.

Cotesia glomerata (contra a lagarta da couve). Ataca sobretudo as lagartas da borboleta-da-couve, o inimigo número um das brássicas. Uma única lagarta pode alojar dezenas de larvas, o que explica porque estas vespas parasitoides ajudam a reduzir tão depressa as populações da praga. Aparecem sobretudo quando as lagartas já são abundantes, no fim do verão e no outono.

Encarsia (contra a mosca-branca). Vespas minúsculas, com cerca de meio milímetro a um milímetro, que parasitam as pupas da mosca-branca. São das mais estudadas no controlo biológico da mosca-branca e, em hortas familiares, aparecem sobretudo em varandas e pequenas estufas de sementeira, onde o calor favorece a mosca-branca e quem a combate. As vespas parasitoides deste género são pouco visíveis, por isso o sinal a procurar é a pupa escura. Algumas vespas parasitoides deste tipo vendem-se para libertação, mas numa horta ao ar livre é mais fiável criar as condições para que as espécies locais se instalem.

Trichogramma (contra os ovos de lagartas). Atacam os ovos em vez das larvas: com cerca de meio milímetro, depositam o seu ovo dentro do ovo da praga e impedem que a lagarta chegue a nascer. É por isso que a intervenção é tão precoce e eficaz.

Diglyphus (contra a mosca-minadora). Parasitam as larvas que vivem dentro das galerias das folhas, onde muitos tratamentos de contato não chegam. Se vê folhas com galerias claras e sinuosas, mas as larvas aparecem mortas e as galerias deixam de crescer, é provável que estas vespas parasitoides estejam a trabalhar a seu favor.

Como proteger as vespas parasitoides que já vivem na sua horta

O maior erro que se comete é tratar a horta como se os insetos fossem todos inimigos. Muitas vezes, quem pulveriza para acabar com os piolhos elimina também as vespas parasitoides que estavam prestes a resolver o problema sozinhas.

Pense antes de pulverizar. Mesmo os tratamentos biológicos têm impacto. O sabão de potássio e os óleos hortícolas atuam por contato e podem atingir os adultos e as múmias; use-os só nas folhas realmente afetadas, ao fim do dia, quando os adultos estão menos ativos, e nunca sobre as flores. Já o Bacillus thuringiensis é seletivo para lagartas, mas reduz o número de hospedeiros e, com eles, o das vespas parasitoides que os acompanham. Só vale a pena recorrer a ele quando a infestação põe em risco a colheita.

Aceite um pouco de praga. Parece contraditório, mas as vespas parasitoides só permanecem na horta se tiverem hospedeiros para parasitar. Se eliminar todos os piolhos de uma vez, elas vão procurar hospedeiros noutro lado. Uma pequena população de pragas, vigiada com atenção, funciona como reserva que mantém os auxiliares por perto.

Cuidado com as armadilhas cromáticas. As armadilhas amarelas capturam também auxiliares minúsculos, sem distinguir amigos de inimigos; se as usar para monitorizar, coloque poucas e retire-as quando surgirem muitos.

Deixe zonas menos mexidas. Os adultos precisam de abrigo contra o vento e o calor excessivo. Uma sebe baixa, um canto com ervas espontâneas ou um pequeno canteiro de flores onde não mexe durante o verão fazem a diferença. Nas limpezas de outono, evite remover de uma vez todos os restos de culturas, porque muitos insetos auxiliares, incluindo parasitoides, passam o inverno entre restos de vegetação.

Como atrair vespas parasitoides para a horta

Os adultos das vespas parasitoides alimentam-se de néctar e pólen, e têm peças bucais curtas. Por isso, precisam de flores pequenas e abertas, onde o néctar esteja à vista, ao contrário de flores fundas, mais adaptadas a abelhas e borboletas. Sem essas flores, mesmo que haja hospedeiros, os adultos duram menos tempo e põem menos ovos.

Umbelíferas. Coentros, funcho, endro, salsa e cenoura deixados a florir formam pequenos pratos de flores brancas ou amarelas, ideais para insetos de peças bucais curtas. Deixe ir a flor uma ou duas plantas de coentros por canteiro: perde pouca folha e ganha muitos auxiliares.

Alisso-doce, facélia e trigo-sarraceno. O alisso-doce é uma das flores mais fáceis de semear: cobre o solo, floresce durante meses e dispensa cuidados. A facélia e o trigo-sarraceno crescem depressa e funcionam como faixas floridas entre canteiros. Para quem prefere uma solução pronta, [esta mistura de sementes de flores para insetos auxiliares] costuma reunir várias destas espécies e simplifica a sementeira, o que aumenta a probabilidade de as vespas parasitoides encontrarem flores abertas da primavera ao outono.

Floração escalonada. O ideal é semear flores em duas ou três datas, entre o fim do inverno e o início do verão, para que a horta nunca fique sem pratos de néctar. Se tiver pouco espaço, uma floreira na varanda ou um vaso com coentros e alisso-doce já fazem diferença.

Água e calma. Uma tigela rasa com pedras para os insetos pousarem, mantida com água limpa nos dias de calor, ajuda. Em vez de cortar todas as flores de uma vez, vá retirando apenas algumas, para que haja sempre outras abertas.

Mãos a plantar alisso-doce junto a couves-galegas numa horta comunitária, flores que atraem vespas parasitoidesv
Plantar alisso-doce e coentros na bordadura do canteiro é a forma mais simples de atrair vespas parasitoides

Vespas parasitoides e plantas companheiras e antagónicas

Muitas das plantas que atraem vespas parasitoides também são boas companheiras das hortícolas. Os coentros e o endro produzem flores acessíveis a vários insetos auxiliares; o alisso-doce pode ser semeado nas bordaduras dos canteiros, enquanto a facélia e o trigo-sarraceno podem ser cultivados entre as linhas ou nas proximidades das culturas, desde que não dificultem os trabalhos da horta. As flores fornecem néctar e ajudam a criar condições favoráveis à presença de insetos auxiliares. A diversificação da vegetação também pode dificultar a localização das plantas hospedeiras por algumas pragas.

Antagonistas a ter em conta. O funcho liberta substâncias que inibem o crescimento de muitas hortícolas, como tomateiros, feijoeiros e cenouras; plante-o num canto à parte, longe dos canteiros produtivos, onde continua a servir de fonte de néctar para as vespas parasitoides. Convém também separar o funcho dos coentros, que não gostam da vizinhança um do outro. Num sentido mais amplo, o pior antagonista é o canteiro sem flores: sem néctar nem abrigo, as vespas não ficam.

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Sabia que …

Quando uma couve é atacada por uma lagarta, a planta não fica passiva. Vários estudos demonstraram que liberta compostos voláteis diferentes dos emitidos quando está intacta. Estes sinais químicos podem atrair vespas parasitoides, como a Cotesia glomerata, que localizam as lagartas hospedeiras para nelas depositarem os seus ovos. É uma espécie de sinal de socorro químico que ajuda estes insetos auxiliares a encontrar as suas presas. Ou seja, a sua horta dispõe de um sistema natural de defesa — mais uma razão para evitar tratamentos desnecessários que possam prejudicar os insetos auxiliares.

Perguntas frequentes sobre vespas parasitoides

As vespas parasitoides picam as pessoas?

Não, as espécies que vivem numa horta são minúsculas e não mostram comportamento agressivo para com as pessoas. Podem pousar na sua pele por curiosidade sem qualquer perigo. Só as vespas comuns, de corpo amarelo e preto e muito maiores, merecem cautela.

Posso comprar vespas parasitoides para libertar na horta?

Existem espécies comercializadas para controlo biológico, mas destinam-se sobretudo a produtores e a espaços fechados, onde a libertação é mais eficaz. Numa horta ao ar livre, o investimento raramente compensa: as vespas dispersam-se depressa. O melhor investimento é preparar a horta para receber as que já existem na zona.

Os piolhos castanhos e inchados são uma doença?

Não. São piolhos parasitados, as chamadas múmias. Se vir um furo redondo na parte de trás do corpo, o adulto já saiu; se não vir furo, ainda está a desenvolver-se lá dentro. Em qualquer dos casos, o melhor é não pulverizar e deixar que as vespas parasitoides terminem o trabalho.

Posso usar sabão de potássio se tenho vespas parasitoides na horta?

Pode, com moderação. Aplique-o só nas folhas onde há piolhos sem múmias, ao fim do dia, e evite as flores. Se quiser aprender a preparar o seu, veja o artigo Como fazer sabão inseticida.

Quanto tempo demora a ver resultados?

Depende da praga e da temperatura. Com tempo ameno, os primeiros sinais, como múmias de piolhos, surgem entre uma e duas semanas depois de os adultos chegarem. A estabilidade, porém, só se consolida ao longo da época, à medida que as flores e os hospedeiros se mantêm por perto.

Conclusão

As vespas parasitoides são das auxiliares mais discretas e mais eficazes que uma horta pode ter. Não incomodam as pessoas, não dão trabalho e fazem de modo biológico o que muitos tratamentos não conseguem: encontrar a praga onde ela se esconde. Para as manter por perto, basta reconhecer os sinais, resistir à tentação de pulverizar sem necessidade e oferecer flores pequenas e abertas durante toda a época. Comece na próxima primavera com uma faixa de coentros, alisso-doce e facélia e vigie com atenção os piolhos e as lagartas das couves: é provável que dentro de poucas semanas veja as primeiras múmias e os primeiros casulos amarelos.

Para completar a sua equipa de auxiliares, leia também os artigos Crisopa: ciclo de vida, ovos e como atrair este aliado da horta e Joaninhas na horta: como identificar, atrair e proteger as suas melhores aliadas contra os pulgões e, para reforçar o controlo dos piolhos, veja Como combater os piolhos na horta de modo biológico.

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