Como cultivar corretamente favas na sua horta

Cultivar favas num canteiro de quintal com plantas em flor

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Para cultivar favas com sucesso na horta, semeie diretamente no local definitivo entre outubro e novembro (em zonas mais amenas, até dezembro), a 4–6 cm de profundidade e com 15–30 cm entre plantas, num solo bem drenado, rico em matéria orgânica e com sol. Depois, apoie as plantas com estacas e cordel, despunte-as quando surgirem as primeiras vagens, vigie o pulgão-preto e colha entre 70 e 150 dias após a sementeira, consoante a variedade e o clima.

Setembro e outubro são os meses de preparação: é agora que se escolhem as sementes, se prepara o canteiro e se decide onde vai ficar a cultura. Neste artigo encontra as variedades disponíveis em Portugal, a adubação, o cultivo em vaso, as pragas e as diferenças por região, tudo o que precisa para cultivar favas do solo à colheita, sem erros de principiante.

Cultivar favas: porque vale a pena na sua horta

A fava (Vicia faba) é uma das leguminosas mais fáceis e mais rentáveis de cultivar de modo biológico. Cresce no outono e no inverno, quando a horta tem menos opções, quase não exige cuidados e ainda deixa o solo mais fértil para a cultura seguinte.

Melhora o solo. Tal como o feijão e a ervilha, as favas fixam o azoto da atmosfera através da bactéria Rhizobium leguminosarum, que vive em nódulos nas raízes. No fim do ciclo, em vez de arrancar a planta, corte-a rente ao solo e deixe as raízes a decompor-se: o azoto fica disponível para as culturas seguintes, como a couve ou o tomate.

Origem e história das favas

Admite-se, com algumas dúvidas, que as favas tenham tido origem no Sudoeste asiático, na região a sul do mar Cáspio, onde foram encontradas na forma silvestre. Terão sido levadas para o sul da Europa e para o Norte de África em época anterior a 3000 a.C. (Candolle, 1884). Nikolai Vavilov, que identificou os centros de diversidade das plantas cultivadas, considera ainda um centro de origem secundário na Etiópia.

Sabe-se que eram cultivadas no Egito antigo, onde, segundo o historiador grego Heródoto, alguns sacerdotes as consideravam um alimento impuro. A Bíblia refere que os hebreus também as cultivavam, e gregos e romanos tinham-nas em grande conta. Hoje, as favas estão difundidas por todos os continentes e continuam a ser um dos legumes mais tradicionais da cozinha portuguesa.

Variedades de fava interessantes para uma horta em Portugal

A ‘Aguadulce’ continua a ser uma das escolhas mais interessantes para a horta portuguesa. É uma variedade semi-precoce, de porte relativamente elevado, que produz vagens pendentes com cerca de 25–30 cm e 6–9 grãos. É particularmente indicada para consumo em verde e adapta-se bem ao cultivo de outono-inverno.

A ‘Superaguadulce’ é outra excelente opção para quem procura vagens muito compridas. Pode atingir cerca de 35 cm, com 8–10 grãos, e apresenta boa resistência ao frio, característica particularmente interessante para regiões onde as temperaturas descem durante o inverno.

A ‘Muchamiel’ é uma variedade precoce de origem espanhola, com plantas de cerca de 70–90 cm e vagens de 18–22 cm contendo normalmente 5–7 grãos. Existem ainda seleções ‘Muchamiel Precoz’, interessantes quando se pretende antecipar a produção.

A ‘Luna de Agosto’ merece destaque entre as variedades muito precoces. Forma plantas de cerca de 65–75 cm e vagens de 24–26 cm, com 6–8 grãos. A colheita pode começar cerca de 60–70 dias depois da sementeira, concentrando-se sobretudo na primavera. Apesar do nome, não significa que agosto seja a melhor época para a semear em todo o território português: o calendário deve ser ajustado às condições locais.

Entre as variedades tradicionais portuguesas, a ‘Algarvia’ continua a ter especial interesse, sobretudo no Algarve. Está documentada entre as variedades tradicionais de Vicia faba conservadas em Portugal.

A ‘Windsor’ pode ser escolhida quando se procuram favas de grão grande e plantas robustas. É uma variedade tradicional, mas não é necessário limitar a sua utilização à primavera: tal como acontece com outras variedades, a época adequada depende das condições de cada região.

E as variedades anãs?

As variedades de porte baixo ou anão podem ser uma boa escolha para hortas pequenas, canteiros elevados e espaços onde não se pretende instalar estruturas de suporte. No entanto, não devem ser confundidas com variedades especificamente destinadas à sementeira de primavera. O porte da planta e a época de cultivo são características diferentes.

Para uma horta familiar em Portugal, ‘Aguadulce’, ‘Superaguadulce’, ‘Muchamiel’ e ‘Luna de Agosto’ são quatro opções particularmente interessantes, enquanto as variedades tradicionais portuguesas, como ‘Algarvia’, acrescentam valor quando se pretende preservar variedades regionais e experimentar materiais adaptados às condições locais.

Época de cultivo das favas por região

A fava é uma cultura de outono-inverno, tolerante ao frio, mas sensível a geadas intensas. Em Portugal, a melhor época de sementeira depende sobretudo da região. Consulte também o nosso calendário da horta por regiões em Portugal para confirmar as datas na sua zona.

Norte e zonas interiores frias
Sementeira: outubro a novembro, em locais protegidos, ou fevereiro a março nas zonas sujeitas a geadas fortes. A sementeira de outono permite uma colheita mais precoce, mas em locais muito frios é mais seguro esperar pelo final do inverno. Variedades como ‘Aguadulce’ e ‘Superaguadulce’, com boa tolerância ao frio, são particularmente interessantes.

Centro e litoral Centro
Sementeira: outubro a dezembro. É uma das regiões onde a sementeira de outono funciona melhor. Nas zonas mais amenas do litoral, pode começar-se mais cedo; nas zonas interiores, é preferível aproximar a sementeira do final do outono. ‘Aguadulce’, ‘Superaguadulce’ e ‘Muchamiel’ são boas escolhas.

Oeste e litoral
Sementeira: outubro a dezembro, aproveitando as temperaturas moderadas do inverno. A cultura pode permanecer no terreno durante os meses frios e desenvolver-se rapidamente no final do inverno. As variedades precoces, como ‘Muchamiel’ e ‘Luna de Agosto’, podem ser interessantes para antecipar a produção.

Alentejo
Sementeira: outubro a novembro, podendo iniciar-se em setembro nas zonas mais amenas. Aqui é importante evitar que a floração e o enchimento das vagens coincidam com o calor intenso e a falta de água. As variedades precoces, como ‘Luna de Agosto’ e ‘Muchamiel’, podem ter vantagem.

Algarve
Sementeira: setembro/outubro a novembro. O clima permite uma das épocas de cultivo mais precoces do país. A variedade tradicional ‘Algarvia’ é especialmente interessante nesta região. Também ‘Luna de Agosto’, ‘Muchamiel’ e ‘Aguadulce’ podem ser utilizadas, ajustando a data de sementeira ao microclima.

Madeira e Açores
O clima mais ameno permite uma janela de sementeira mais alargada, mas deve ser ajustada à altitude, exposição e humidade de cada local. Nas zonas de clima mais suave, a cultura pode ser instalada durante uma parte significativa do outono e inverno.

Onde e em que solo cultivar favas

A faveira é uma planta bem adaptada aos dias curtos e rústica quanto ao clima, mas prefere zonas temperadas e frescas. Para cultivar favas sem surpresas, considere estes fatores.

Temperatura. O crescimento estagna aos 6–8 ºC e o ótimo situa-se entre os 18 e os 22 ºC. A planta resiste a geadas de cerca de -3 a -4 ºC e recupera quando passam, embora as flores existentes se percam e a planta tenha de produzir nova floração.

Solo. Adapta-se a quase todos os tipos, mas prefere solos de textura franca a franca-arenosa, com boa drenagem e ricos em matéria orgânica. Para cultivar favas, o pH ideal ronda os 6,0 a 7,5, e um medidor digital de pH e humidade para o solo ajuda a confirmar o valor antes de semear. O encharcamento é o pior inimigo: prejudica as raízes e a atividade das bactérias fixadoras de azoto.

Como semear favas

Sementeira direta para cultivar favas num canteiro elevado
Enterre as sementes a 4–6 cm de profundidade para cultivar favas com boa germinação

Sementeira direta. É o método mais simples para cultivar favas. A uma temperatura entre 12 e 20 ºC, a germinação demora 8 a 12 dias, e acima dos 20 ºC as sementes dificilmente germinam. Demolhar as sementes em água durante 24 horas acelera o processo. Enterre-as a 4–6 cm de profundidade, com 15–30 cm entre plantas e cerca de 50 cm entre filas.

Sementeira em alvéolos ou vasos pequenos. Pode semear em tabuleiros de alvéolos grandes ou em vasos pequenos e transplantar quando as plantas tiverem três ou quatro folhas verdadeiras, o que acontece em cerca de quatro a seis semanas. A transplantação deve ocorrer na época indicada para a sementeira direta. É útil em zonas muito chuvosas, onde as sementes podem apodrecer no solo, e em hortas com problemas de roedores.

Quem gosta de seguir as fases da Lua tem a tradição de semear as favas no quarto crescente.

Adubação e preparação do solo para as favas

Ao cultivar favas, o erro mais comum é adubá-las demais, porque produzem o seu próprio azoto. Excesso de azoto dá muita folha, pouca flor e mais pulgão. Antes da sementeira, incorpore composto maduro ou estrume bem curtido à superfície, numa camada de 3 a 5 cm, e mobilize o solo sem o inverter.

Cuidados ao cultivar favas: suporte, rega e despontar

Cultivar favas exige cuidados muito simples. Nas fases iniciais resumem-se à rega e a uma ou duas sachas ligeiras para controlar as infestantes. Uma cobertura orgânica de composto, folhas secas ou aparas ajuda a limitar a concorrência de outras plantas e a manter a humidade.

Suporte. As variedades mais altas precisam de apoio. Cravar estacas de 1,5 m nos extremos das filas e passar duas ou três voltas de cordel a alturas diferentes evita o acamamento. Um conjunto de estacas para tutorar plantas resolve o problema, e é mais prático do que improvisar a meio da época, quando as plantas já estão pesadas.

Rega. Cultivar favas exige pouca rega, mas a humidade excessiva prejudica a cultura porque compromete o estado fitossanitário e a atividade microbiana responsável pela fixação de azoto. O período crítico de défice hídrico é a germinação, a floração e o enchimento das vagens: a falta de água nestas fases causa abortos florais, menos vagens, vagens mais curtas e sementes mais pequenas.

Despontar. Assim que as primeiras flores começarem a dar vagens, corte a ponta do caule, onde estão as folhas mais jovens. Assim, a planta dirige a energia para as vagens e previne-se o ataque do pulgão-preto, que costuma começar pelas partes mais tenras.

Proteção contra pulgão e frio. Uma rede de proteção anti-insetos de malha fina ajuda nos canteiros pequenos, e em noites de geada forte um véu de proteção evita perder as primeiras flores.

Cultivar favas em vaso e na varanda

Plantas anãs para cultivar favas em vaso numa varanda
Com variedades anãs e um vaso fundo, pode cultivar favas mesmo sem horta

É possível cultivar favas em vaso, canteiro elevado ou horta urbana, desde que escolha variedades anãs. O vaso deve ter pelo menos 30 cm de profundidade e 25 a 30 litros de capacidade para três ou quatro plantas, com furos de drenagem e um bom substrato universal enriquecido com composto. Estes sacos de cultivo em TNT (tecido não tecido), são uma boa opção.

Para cultivar favas na varanda, coloque o vaso no local mais soalheiro e regue com regularidade, porque o substrato seca mais depressa do que o solo da horta. Mesmo as variedades anãs agradecem uma pequena estaca e um pouco de cordel. A produção por planta é menor do que na horta, mas as favas ficam à mão e a colheita faz-se ao ritmo da cozinha.

Pragas e doenças das favas

As favas são resistentes, mas há alguns problemas a conhecer. Para um guia detalhado, consulte o nosso artigo sobre doenças e pragas das favas.

Pulgão-preto (piolho-preto). É a praga número um. Concentra-se nos rebentos novos e enfraquece a planta. Além de despontar, pode pulverizar com sabão de potássio e óleo de neem diluído e favorecer os auxiliares: joaninhas, sirfídeos e crisopa comem pulgões em grande quantidade. As flores companheiras ajudam a atrair estes aliados.

Ferrugem e mancha-chocolate. São doenças fúngicas que aparecem com humidade elevada, manchas castanhas nas folhas e perda de vigor. Prevenção: respeitar o compasso, evitar regar as folhas, retirar restos de plantas doentes e fazer rotação de culturas.

Pulgão-preto na ponta de uma planta ao cultivar favas
Despontar a tempo evita que o pulgão-preto se instale ao cultivar favas

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Plantas companheiras e antagónicas das favas

A consociação certa ajuda a poupar espaço e a afastar problemas. Estas são as associações mais referidas para quem quer cultivar favas.

Boas companheiras. Alface, batata (ajuda a afastar o escaravelho-da-batateira), cenoura, couve, espinafre, morango, pepino, milho e aipo. A alface e o espinafre aproveitam a sombra leve no inverno; a couve beneficia do azoto que as favas deixam no solo.

Más companhias. Cebola, alho, alho-francês e funcho, que inibem o crescimento das leguminosas. O feijão e a ervilha também devem ficar afastados: pertencem à mesma família, partilham pragas e doenças e competem pelos mesmos recursos.

Colheita e conservação das favas

Depois de meses a cultivar favas, escolha o momento certo: a colheita deve ser feita na época própria de cada variedade. As vagens devem estar inteiras, sãs, frescas e sem humidade exterior. A colheita manual faz-se 70 a 150 dias após a sementeira, à medida que as vagens atingem o desenvolvimento adequado, e pode estender-se por quatro a cinco semanas.

Como colher. Comece pelas vagens de baixo, mais próximas do caule central: isto estimula as restantes a continuar a crescer. As favas estão no seu melhor quando a membrana que as liga ao interior da vagem ainda está branca ou verde, e não castanha ou preta. Se as deixar demasiado tempo, ficam rijas e farinhentas.

Conservação. Fresca na gaveta do frigorífico aguenta cerca de uma semana. Para congelar, descasque, escalde 2 minutos, arrefeça em água fria e congele em pequenas porções.

Sementes para o próximo ano. Deixe algumas vagens amadurecer na planta até ficarem bem secas e escuras, retire as sementes, seque-as bem e guarde-as num frasco de vidro, em local fresco e seco.

Valor nutricional e usos culinários das favas

As favas são muito nutritivas: ricas em hidratos de carbono, proteínas e fibra, e boa fonte de potássio, fósforo, ferro, magnésio, folatos e vitaminas do complexo B e C. Fazem parte de uma alimentação equilibrada, mas não substituem tratamento médico.

Cuidado com o favismo. O consumo de favas pode provocar favismo, uma anemia hemolítica, em pessoas com deficiência de uma enzima chamada G6PD. Se tem dúvidas, converse com o seu médico antes de as comer.

Sabia que…

As favas são uma fonte natural de L-dopa, a substância que o corpo transforma em dopamina e que serve de base a medicamentos usados no tratamento da doença de Parkinson. Não é razão para as comer em excesso nem para as usar como tratamento.

Perguntas frequentes sobre cultivar favas

Quando se semeiam as favas em Portugal?

Na maior parte do país, de outubro a novembro; no sul pode prolongar-se até dezembro e, no interior mais frio, há quem semeie em fevereiro e março.

Quanto tempo demoram as favas a nascer e a produzir?

A germinação demora 8 a 12 dias a 12–20 ºC. A colheita faz-se 70 a 150 dias após a sementeira, consoante a variedade.

Posso cultivar favas em vaso?

Sim, pode cultivar favas em vaso com variedades anãs e um vaso com pelo menos 30 cm de profundidade, boa drenagem e sol direto.

Porque ficam as favas cheias de pulgões pretos?

O pulgão-preto ataca os rebentos novos, sobretudo na primavera. Despontar, pulverizar com sabão de potássio e favorecer joaninhas e crisopa resolve a maioria dos casos.

Que plantas não devem ficar perto das favas?

Cebola, alho, alho-francês e funcho. Evite também ervilhas e feijão ao lado, por pertencerem à mesma família.

Conclusão

Cultivar favas é um dos melhores investimentos de outono: poucas regas, pouco trabalho e colheitas generosas, ainda a melhorar o solo para o ano seguinte. Escolha uma variedade adequada à sua região, semeie na época certa, apoie as plantas, despunte e vigie o pulgão. Se tiver pouco espaço, comece por um vaso com uma variedade anã.

Para continuar, leia o artigo sobre doenças e pragas das favas e consulte o calendário da horta por regiões em Portugal para planear as próximas sementeiras.

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