A crisopa (Chrysoperla carnea) é um inseto auxiliar de corpo verde-claro e asas transparentes, cujas larvas devoram pulgões, ácaros, tripes, mosca-branca e ovos de outras pragas. Para a ter na horta, ofereça flores com néctar e pólen, evite inseticidas e, se a infestação já estiver instalada, liberte larvas compradas a um fornecedor de auxiliares.
Neste artigo vai aprender a reconhecer os ovos presos por um fio e as larvas da crisopa, perceber o ciclo de vida, atrair os adultos com as plantas certas, montar um hotel e comprar e libertar larvas sem desperdiçar dinheiro. Quando percebe como este auxiliar trabalha, deixa de ver a “bicharada” da horta como ameaça e passa a tratá-la como equipa.
Tópicos neste artigo
O que é a crisopa e porque é tão valiosa na horta
A crisopa pertence à família Chrysopidae, da ordem Neuroptera, a mesma das formigas-leão. É um dos auxiliares mais estudados e utilizados em controlo biológico em todo o mundo, tanto em pomares e culturas protegidas como em hortas familiares. É criada em laboratório há décadas e vendida em várias formas, o que a torna acessível a quem tem uma varanda ou um quintal pequeno.
Como é o adulto. Mede cerca de 1 a 1,5 centímetros de corpo, tem antenas longas, olhos de um dourado-cobre brilhante e quatro asas finas, rendilhadas, que ultrapassam o abdómen e pousam em forma de telhado. É um voador desajeitado e mais ativo ao entardecer e à noite, por isso muita gente tem crisopas na horta sem nunca as ter visto. Se a pegar, liberta um cheiro desagradável, uma defesa natural.
Um grupo de espécies muito parecidas. O que se vende e se descreve como Chrysoperla carnea corresponde, na verdade, a um grupo de espécies difíceis de distinguir a olho nu, algumas delas presentes na região mediterrânica. Para a horta, a diferença é pequena: todas se comportam de forma semelhante e todas beneficiam das mesmas medidas de proteção.
Adulto e larva têm trabalhos diferentes. Este é o ponto que mais confunde. O adulto alimenta-se sobretudo de néctar, pólen e melada, a substância açucarada que os pulgões excretam. Quem trabalha como predador é a larva. Por isso, atrair este auxiliar é, antes de mais, uma questão de lhes dar flores e abrigo.

Ciclo de vida da crisopa: do ovo ao adulto
Conhecer o ciclo ajuda a saber quando a crisopa está a proteger a sua horta e quando é preciso ter paciência.
Ovo. A fêmea pousa cada ovo isolado na ponta de um fio fino e rígido, o pedicelo. Os ovos são postos de preferência em folhas onde já existem colónias de pulgões, para que as larvas nasçam rodeadas de comida. Ao longo da vida, uma fêmea pode pôr várias centenas de ovos. Em tempo ameno, a eclosão demora poucos dias.
Larva. Passa por três fases de crescimento, ao longo de duas a três semanas, e é aqui que ganha o apelido de “leão-dos-pulgões”. Tem corpo alongado, achatado e afilado nas pontas, pernas bem visíveis e duas maxilas em forma de foice com que agarra as presas.
Pupa. Terminado o crescimento, a larva tece um casulo esférico de seda branca, escondido numa dobra de folha, num caule ou numa fenda. Lá dentro transforma-se em adulto, o que demora cerca de uma a duas semanas.
Adulto. Emerge do casulo, alimenta-se de pólen e néctar e, passados alguns dias, as fêmeas começam a pôr ovos. Vive várias semanas e, no outono, os indivíduos que vão passar o inverno procuram abrigo em frestas, palheiros e caixas.
Quanto tempo demora o ciclo completo. Depende muito da temperatura. Com calor, o ciclo completo pode fechar-se em cerca de um mês a um mês e meio, por isso a espécie pode ter várias gerações por ano. Com frio, tudo abranda e a maioria dos adultos entra em repouso.
Como identificar os ovos e as larvas da crisopa
É a parte mais prática do artigo, porque quem reconhece os ovos e as larvas deixa de os destruir sem querer ao limpar as plantas.
Ovos. Têm cerca de um milímetro, são ovais e esverdeados ou esbranquiçados, e estão presos a um fio branco-esverdeado que se levanta da folha. Costumam estar na página inferior das folhas, perto de pulgões, isolados ou em pequenos grupos. Antes de eclodirem, ficam acinzentados. Se vir “pequenos cogumelos” minúsculos numa folha infestada de pulgões, são muito provavelmente ovos de crisopa: deixe-os em paz.
Larvas. Ao nascer têm um ou dois milímetros e crescem até cerca de um centímetro. Têm cor castanho-amarelada, com manchas mais escuras, pelos finos, corpo afilado e pinças bem visíveis na frente. Movem-se depressa e, quando encontram um pulgão, não perdem tempo. Algumas outras espécies de crisopas cobrem o dorso com restos de presas e detritos; as de Chrysoperla carnea andam “nuas”.
Não confunda com outras larvas. A larva de joaninha é mais curta, mais robusta e tem manchas ou espinhos coloridos. As lagartas têm pernas falsas carnudas e não têm pinças. A larva de sirfídeo, outro auxiliar valioso, não tem pernas e parece uma pequena lesma translúcida. Em caso de dúvida, não pulverize: observe durante alguns dias.
Casulos. Pequenas bolas de seda branca, do tamanho de uma ervilha pequena, em dobras de folhas ou junto às nervuras. Se encontrar um, deixe-o onde está.

O que come a crisopa: presas e eficácia
Presas preferidas. As larvas são predadoras vorazes de insetos de corpo mole. Alimentam-se de pulgões, ácaros, tripes, mosca-branca, cochonilhas jovens, psilídeos, pequenas lagartas e ovos de várias espécies, incluindo ovos de borboletas e mariposas. Quando precisam, atacam também larvas pequenas de escaravelhos.
Como caçam. Quando detetam uma presa, agarram-na com as maxilas, injetam enzimas digestivas e sugam o conteúdo já liquefeito do corpo, deixando apenas a casca vazia. É um método rápido e eficaz, e é por isso que uma larva pode consumir centenas de pulgões ao longo do seu desenvolvimento.
Eficácia na prática. Este auxiliar funciona melhor quando é protegido cedo, antes de a praga explodir. Em infestações já muito avançadas, uma única libertação raramente chega, sendo preciso reforçar com outras medidas biológicas. Contra ácaros como o aranhiço-vermelho, a larva ajuda, mas pode e deve ser combinada com outras estratégias, como as descritas no artigo sobre como combater o aranhiço-vermelho de modo biológico.
Canibalismo. Quando o alimento escasseia, as larvas de crisopa podem atacar-se e comer-se umas às outras, num comportamento conhecido como canibalismo. Esta tendência ajuda a compreender por que razão os ovos são depositados individualmente, na extremidade de finos pedúnculos, que os mantêm afastados uns dos outros. Pela mesma razão, algumas apresentações comerciais de larvas de crisopa incluem compartimentos individuais ou materiais que reduzem o contacto entre elas, diminuindo o risco de canibalismo.
E os adultos? Os adultos de Chrysoperla carnea não são predadores. Alimentam-se de néctar, pólen e melada. Sem estas fontes por perto, dispersam-se e vão procurar outro sítio, levando consigo a postura de ovos. É por isso que os adultos só ficam onde existe flor.
Como atrair a crisopa para a horta
Atrair a crisopa é mais barato e duradouro do que comprar larvas todos os anos.
Flores abertas e acessíveis. Prefira flores pequenas, de corola aberta, onde o néctar está à mão: endro, funcho, coentros, salsa e cenoura deixados a florir, angélica, dente-de-leão, calêndula, cosmos, milefólia e girassol. Escalone as floradas de março a outubro para que haja sempre alimento disponível. Se quer saber mais sobre os benefícios de uma das plantas, veja o artigo sobre as vantagens do girassol na horta.
Faixas floridas em camadas. Em vez de plantar flores soltas, reserve uma faixa de 50 centímetros a um metro na margem do canteiro ou, numa varanda, uma ou duas floreiras. Combine plantas baixas, médias e altas para oferecer abrigo e alimento a diferentes alturas. Uma boa solução prática é usar esta mistura de sementes de flores que vão fornecer néctar, pólen e abrigo que a crisopa precisa.
Água e abrigo. Um pires com água e pedras onde os insetos possam pousar sem se afogarem, um canto da horta com folhas secas e erva por cortar e, se possível, uma sebe ou arbusto próximo fazem toda a diferença. A crisopa precisa de um sítio calmo para dormir e para passar o inverno.
Reduza os inseticidas ao mínimo. Mesmo alguns produtos permitidos em agricultura biológica, como as piretrinas, prejudicam as crisopas e outros auxiliares. Se tiver de intervir, aplique ao fim do dia e apenas nos focos, evitando pulverizar sobre ovos e larvas visíveis. O sabão de potássio também pode atingir larvas de corpo mole se for aplicado diretamente sobre elas.
Controle as formigas. Algumas espécies de formigas protegem os pulgões dos seus predadores naturais, como as larvas de crisopa, para recolher a melada açucarada que estes excretam. Se observar uma fila constante de formigas a subir pelo tronco de uma árvore de fruto ou pelos ramos de um arbusto, vale a pena verificar se existem colónias de pulgões nas folhas e nos rebentos. Barreiras físicas, como cintas adesivas próprias para árvores, podem dificultar o acesso das formigas à copa e ajudar a restabelecer o equilíbrio entre os pulgões e os seus inimigos naturais. A aplicação deve seguir as instruções do fabricante e evitar o contacto direto da cola com a casca.

Plantas companheiras e práticas favoráveis à crisopa
Plantas companheiras. Endro, funcho, coentros e salsa em flor, calêndula, cosmos, milefólia e alisso-marítimo são boas opções para aumentar a diversidade floral da horta. As flores pequenas e abertas facilitam o acesso ao néctar e ao pólen, recursos importantes para os adultos de muitas espécies de crisopas. Estas plantas também podem atrair outros auxiliares, como joaninhas e sirfídeos, contribuindo para uma rede de proteção biológica mais diversificada.
A capuchinha pode funcionar como planta-isco, ao atrair pulgões que, em determinadas circunstâncias, ficam concentrados nessa planta. No entanto, é necessário vigiar as colónias para evitar que a infestação se propague às culturas vizinhas.
O que prejudica a crisopa. Existem práticas que reduzem a presença e a sobrevivência das crisopas: a utilização de inseticidas de largo espectro, a remoção excessiva da vegetação espontânea e das flores, e a eliminação de refúgios naturais. Algumas flores ornamentais muito dobradas podem dificultar o acesso ao néctar e ao pólen. A iluminação artificial intensa durante a noite também pode alterar o comportamento dos adultos, embora o efeito dependa da espécie e das condições de iluminação.
Como combinar. Junto aos canteiros de couves, feijoeiros ou tomateiros, semeie endro e calêndula para diversificar os recursos florais. Perto das árvores de fruto, conserve, sempre que possível, pequenas zonas com dente-de-leão e milefólia, desde que não prejudiquem a gestão da vegetação. Numa varanda, um vaso com coentros deixados em flor e outro com calêndula podem contribuir para criar um ambiente mais favorável aos insetos auxiliares.
Hotel de abrigo: como funciona e onde colocar
O que é. Uma caixa de madeira que serve de abrigo aos insetos, sobretudo no outono e no inverno. Não “cria” crisopas: dá-lhes um sítio seco e protegido para esperar pela primavera. Uma caixa específica para crisopas é mais eficaz do que um hotel de insetos genérico, porque tem frestas finas e verticais, de que estas espécies gostam.
Onde colocar. Perto de flores e de plantas com pulgões, protegido da chuva e do vento forte, a uma altura de cerca de um metro e meio, bem fixo. A orientação a sul ou sueste ajuda a manter o interior mais seco. O início do outono é a melhor altura para o instalar. Existem vários modelos de abrigos simples e acessíveis fáceis de pendurar numa árvore, parede ou poste.
Expectativas realistas. Sem flores por perto, o hotel fica vazio. Se houver, poderá ter ocupantes já no primeiro inverno, mas pode demorar. Não abra nem sacuda a caixa para espreitar, e evite mudá-la de sítio.
Manutenção. Basta verificar uma vez por ano, ao fim do inverno, se a madeira está em bom estado e se não há humidade excessiva no interior.

Como comprar e libertar larvas de crisopa
Quando vale a pena. A compra faz sentido quando a infestação já está instalada, em espaços pequenos e delimitados, como uma varanda, uma mini-estufa doméstica ou um canteiro elevado, e quando a sua horta ainda não tem flores suficientes para segurar os adultos. Ao ar livre e sem flores, uma boa parte das larvas dispersa-se.
O que comprar. Procure fornecedores especializados em auxiliares que vendam ovos ou larvas de Chrysoperla carnea, em embalagens com material de dispersão. Confirme a espécie, a data de expedição e as condições de armazenamento. As larvas são vivas e sensíveis ao calor: devem ser libertadas logo que chegam, no máximo em um ou dois dias, guardadas num local fresco e fora do sol.
Quantidade. Siga a dose indicada pelo fornecedor, que costuma ser de poucas larvas por metro quadrado em infestações ligeiras e maior em focos intensos. Em hortas pequenas, é preferível repartir a dose por vários pontos do que concentrá-la num só.
Como libertar. Ao fim do dia ou de manhã cedo, polvilhe o material de dispersão sobre as folhas com pulgões ou pouse pequenos pedaços de cartão nos ramos. Evite dias de chuva forte, vento ou calor extremo. As temperaturas amenas, aproximadamente entre 15 e 30 graus, são as mais favoráveis.
Depois da libertação. Não use inseticidas nas semanas seguintes e mantenha as flores. Se a infestação for intensa, repita a libertação duas ou três vezes, com um intervalo de uma a duas semanas, para cobrir as diferentes fases da praga.
Erros a evitar. Libertar larvas onde não há presas (vão-se embora ou comem-se umas às outras), guardar a encomenda em local quente, pulverizar produtos logo a seguir e esquecer as formigas, que podem proteger os pulgões das larvas.
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Muitas crisopas ouvem os morcegos. Na base das asas anteriores têm órgãos sensíveis a ultrassons e, ao captarem as frequências de ultrassom emitidas pelo biossonar dos morcegos, dobram as asas e deixam-se cair, escapando à captura. É um dos motivos pelos quais os adultos são tão discretos à noite.
Perguntas frequentes
A crisopa faz mal às plantas ou às pessoas?
Não. As larvas alimentam-se de insetos e os adultos de néctar, pólen e melada. Raramente, uma larva pode beliscar a pele, sem gravidade. Não transmite doenças nem estraga plantas.
Quanto tempo vive uma crisopa?
O adulto vive várias semanas e os que passam o inverno em abrigo podem viver alguns meses. O ciclo completo, do ovo ao adulto, demora cerca de um mês a um mês e meio com tempo quente.
Posso comprar larvas de crisopa e libertá-las numa varanda?
Sim, e é onde costumam funcionar melhor, por ser um espaço pequeno e delimitado. Liberte-as só se já houver pulgões ou outras presas e mantenha flores por perto para segurar os adultos.
Crisopa ou joaninha: qual é melhor contra pulgões?
Não se excluem. A joaninha é mais conhecida e fácil de identificar, mas a crisopa trabalha em mais frentes (ácaros, tripes, ovos) e as larvas são muito vorazes. O ideal é atrair as duas com as mesmas flores.
O que acontece se não houver pulgões?
As larvas dispersam-se ou atacam-se entre si. Por isso, convém libertar larvas apenas quando já existe praga e manter flores para os adultos.
Conclusão
A crisopa é um dos auxiliares mais valiosos da horta biológica e, ao contrário do que parece, não precisa de grande esforço: precisa de flores, de abrigo e de menos produtos. Reconheça os ovos presos por um fio, respeite as larvas, plante endro, calêndula e coentros em flor e, em espaços pequenos com pulgões já instalados, complemente com larvas compradas.
Para continuar a reforçar a sua horta, leia também o artigo sobre como combater o aranhiço-vermelho de modo biológico, o artigo Luta biológica na horta – o que é e como funciona e o artigo Sirfídeos na horta biológica: os aliados que comem pulgões e polinizam as culturas.


























