O extrato de cavalinha (Equisetum arvense) faz-se em casa: ferve-se a planta em água, deixa-se arrefecer, coa-se e dilui-se a 20% (200 ml de extrato mais 800 ml de água) antes de pulverizar, ao fim da tarde, sobre as folhas e o solo. O silício que contém reforça as paredes celulares e ajuda a prevenir e a travar, de modo biológico, o oídio, o míldio, a ferrugem e outras doenças fúngicas.
Parece simples, e é, mas há detalhes que decidem se o tratamento resulta ou falha: a quantidade certa de planta, o tempo de fervura, a conservação do extrato de cavalinha e o ritmo das aplicações. Há ainda um cuidado prévio, porque a planta é invasora e tóxica para alguns animais. Vamos por partes, do vaso ao pulverizador.
Tópicos neste artigo
Cavalinha na horta: o que faz e o que não faz
Uma planta antiga e rica em silício. A cavalinha pertence ao género Equisetum, com cerca de 15 espécies espalhadas pelo mundo, todas com características parecidas. É uma das plantas mais antigas que ainda crescem nas nossas margens de ribeiro e valas de rega, e a que nos interessa é a Equisetum arvense. O que a distingue é o teor de silício, um dos mais elevados do mundo vegetal, a que se juntam potássio, manganês, magnésio e outros minerais.
Como atua nas culturas. Quando pulverizamos o extrato de cavalinha, o silício fica à superfície das folhas e reforça as paredes celulares, o que dificulta a entrada dos fungos. Por isso funciona sobretudo de modo preventivo. Como fungicida, é útil contra a ferrugem, a podridão-cinzenta, o oídio, o míldio, a alternariose, a septoriose, o pedrado da macieira e da pereira e a lepra do pessegueiro, principalmente nas fases iniciais da doença.
O que não deve esperar. O extrato de cavalinha não é um remédio milagroso. Numa planta já muito destruída não substitui a remoção das folhas afetadas, o bom arejamento e a rega ao pé, e em anos muito húmidos pode não chegar sozinho. É uma ferramenta barata de agricultura biológica, tanto mais eficaz quanto mais cedo for usada.
O Equisetum arvense L. (cavalinha) está aprovado na União Europeia como substância de base para utilização na proteção das plantas, ao abrigo do artigo 23.º do Regulamento (CE) n.º 1107/2009. A aprovação foi estabelecida pelo Regulamento de Execução (UE) n.º 462/2014 da Comissão, de 5 de maio de 2014, com usos aprovados em horticultura, arboricultura, plantas ornamentais e viticultura. Convém seguir as condições de preparação e de uso que o regulamento define.
Como cultivar cavalinha em vaso ou na horta
Escolha bem o recipiente. Para fazer o extrato de cavalinha precisa de plantas, e pode cultivar a cavalinha em vaso ou na horta. Adapta-se a muitos tipos de solo, gosta de terra húmida e de meia-sombra e multiplica-se sobretudo por rizomas que avançam por baixo dos canteiros. Por isso pode tornar-se invasora. Para a manter sob controlo, cultive-a em recipientes grandes, com pires por baixo, e mantenha-os longe dos canteiros, porque os rizomas escapam pelos furos de drenagem. Um bom ponto de partida é um vaso grande de tecido resistente, que na varanda serve também de vaso decorativo.
Cuidados no dia a dia. Geralmente não pede fertilização nem cuidados especiais. Em recipiente, regue com regularidade para manter o solo húmido, sobretudo nos períodos mais secos. Para começar, use um pedaço de rizoma com raízes, cedido por um vizinho ou comprado num viveiro, e não arranque plantas na natureza sem confirmar a espécie.
Atenção aos animais. Esta planta contém tiaminase, uma enzima que a torna tóxica para cavalos e gado quando ingerida em quantidade, sobretudo seca no feno, e pode fazer mal a cães, gatos e aves que a mastiguem. Deixe os vasos fora do alcance dos animais de estimação. Existe ainda uma espécie parecida e mais tóxica, a Equisetum palustre, por isso confirme sempre a identificação antes de colher.
Quando e como colher. Colha os caules verdes e ramificados, que surgem depois dos rebentos castanhos da primavera, entre maio e setembro. Corte sem receio, porque recupera depressa. Pode usar a planta fresca no próprio dia ou secá-la à sombra, num local arejado.

Como preparar o extrato de cavalinha
Ingredientes para 5 litros. Precisa de 5 litros de água sem cloro, que pode ser água da chuva ou água da torneira deixada a repousar num recipiente aberto durante um dia, e de 500 g de cavalinha fresca cortada em pedaços pequenos, sem as raízes. Se não tiver planta fresca, use a planta seca, que encontra facilmente em lojas de produtos naturais e dietéticos. Como já não tem água, a quantidade é muito inferior: bastam 75 g para os mesmos 5 litros. Pese tudo com uma balança digital de cozinha e prepare o extrato de cavalinha numa panela de esmalte com capacidade para 10 litros, que evita transbordos e não reage com a planta.
Passo 1: deixe de molho. Coloque a planta cortada e a água num recipiente e deixe de molho um dia inteiro. Esta fase é importante, porque amolece a planta e facilita a extração dos componentes que nos interessam.
Passo 2: ferva. Leve ao lume e, quando levantar fervura, deixe mais 20 a 30 minutos em lume brando.
Passo 3: arrefeça e coe. Retire do lume e deixe arrefecer por completo. Depois coe muito bem com um coador de tecido de malha fina. Se ficarem restos de planta, o extrato de cavalinha conserva-se pior.
Passo 4: engarrafe. Em vez de guardar tudo num recipiente grande, distribua por garrafas pequenas, como as de água de 200 ml. Cada garrafa dá exatamente a dose para 1 litro de calda, e só abre uma de cada vez.
Conservação. Prefira usar o extrato de cavalinha nas primeiras semanas. Guardado num local fresco e sem luz, em garrafas cheias e bem fechadas, aguenta bem algum tempo, no frigorífico dura mais e congelado (deixando espaço na garrafa) mantém-se durante meses. Se estiver turvo, com espuma ou com mau cheiro, deite fora e faça um novo.

Como aplicar o extrato de cavalinha
Diluição. Nunca use o extrato de cavalinha sem ser diluído. Misture 200 ml de extrato com 800 ml de água, para fazer 1 litro de calda a 20%. Em plântulas e folhas muito tenras, comece com metade da concentração e teste primeiro em poucas folhas. Aplique com um pulverizador de pressão de qualidade, que dá uma névoa fina e uniforme. Uma pequena quantidade de sabão de potássio na calda ajuda o extrato de cavalinha a aderir às folhas.
Quando pulverizar. Faça as aplicações sempre ao fim da tarde, quando o sol se põe, para evitar queimaduras nas folhas e proteger os polinizadores, que a essa hora já recolheram. Evite dias de chuva iminente, porque a chuva lava o silício. Molhe as duas faces das folhas e também o solo em redor.
Plantas muito afetadas. Retire primeiro as folhas mais doentes. Depois pulverize uma vez por dia durante 3 dias seguidos, deixe 3 dias de intervalo e repita o ciclo até a infestação estar controlada. Se em duas semanas não notar melhoria, o problema exige outra abordagem.
Atenção: só contra fungos. O extrato de cavalinha não atua sobre insetos. Se o problema forem pulgões, veja como combater os piolhos na horta de modo biológico.
Primeiros sintomas. Se a planta acabou de mostrar sinais da doença, chega uma aplicação mais suave, de 3 em 3 dias durante 12 a 15 dias.
Prevenção. Para fortalecer as plantas, pulverize uma vez por semana nos períodos de chuva e de 15 em 15 dias em tempo seco, sem esquecer o solo em redor.
Quando a cavalinha não chega. Em ataques fortes de míldio, no tomateiro, na batateira ou na videira, pode ser preciso reforçar com calda bordalesa, também aprovada para agricultura biológica.

Cavalinha e camomila: uma calda reforçada
Esta receita reforça o extrato de cavalinha com camomila e serve como fungicida e como fertilizante foliar suave. Para a fazer precisa de 300 g de folhas e caules secos de cavalinha, de 100 g de flores secas de camomila (Matricaria chamomilla) e de água para cerca de 11 litros de calda.
1.ª etapa: camomila. Coloque as flores secas em 1 litro de água e deixe macerar durante 2 dias.
2.ª etapa: cavalinha. Dois dias depois, ferva a cavalinha em 2 litros de água durante 30 minutos. Junte mais 8 litros de água e tape até arrefecer, ficando com 10 litros de calda.
3.ª etapa: mistura e aplicação. Misture o litro de calda de camomila com os 10 litros de calda de cavalinha. Dilua 1 litro desta mistura em 20 litros de água e pulverize sobre as plantas, para controlo fúngico ou como adubo foliar.
Plantas companheiras e antagónicas da cavalinha
Quem mais beneficia da cavalinha. O extrato de cavalinha ajuda sobretudo o tomateiro e a batateira (míldio e alternariose), a videira (oídio e míldio), a macieira e a pereira (pedrado), o pessegueiro (lepra), a curgete e o pepino (oídio), o feijoeiro (ferrugem), o morangueiro (podridão-cinzenta) e a roseira (ferrugem e oídio). Numa horta com estas culturas, a cavalinha em vaso é uma boa aliada.
Plantas a manter afastadas. Aqui o antagonismo não é químico, é físico. Os rizomas competem por espaço e por humidade, por isso nunca plante a cavalinha junto de alface, cenoura, cebola ou de outras culturas de canteiro. Cultive-a à parte, em vaso, e a alguma distância das plantas que quer proteger.
Sabia que…
Devido à sílica acumulada nos seus caules, a cavalinha apresenta uma superfície áspera, semelhante à de uma lixa fina. Esta característica fez com que algumas espécies fossem utilizadas tradicionalmente para esfregar e polir objetos, incluindo metais, madeira e tachos. Em inglês, a designação scouring rush — literalmente, “junco de esfregar” — está precisamente relacionada com esse uso.
A história evolutiva destas plantas é ainda mais surpreendente: há cerca de 300 milhões de anos, durante o Carbonífero, existiam parentes extintos das cavalinhas atuais, como as Calamites, que atingiam dimensões de árvore e faziam parte das grandes florestas pantanosas que deram origem a muitos dos depósitos de carvão.
Diferenças regionais em Portugal
Norte e interior. A humidade e a chuva favorecem o míldio e a ferrugem, mas também a própria cavalinha, que aparece com facilidade junto a linhas de água. Aqui vale a pena manter o esquema preventivo semanal do extrato de cavalinha na época das chuvas.
Sul, Alentejo e Algarve. A cavalinha é mais rara e cresce sobretudo perto de ribeiras e zonas regadas, pelo que a planta seca costuma ser a solução prática para fazer o extrato de cavalinha. No verão quente, pulverize mesmo só ao fim da tarde e nunca com o sol forte.
Madeira e Açores. O clima húmido e ameno mantém as doenças fúngicas ativas durante grande parte do ano, e a cavalinha é comum. Um calendário preventivo regular, ajustado à humidade de cada local, dá bons resultados.
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- Extrato de Cavalinha concentrado: Para quem não tem condições ou paciência para fazer em casa. 100% natural e aprovado como fungicida e bioestimulante. Reforça as defesas naturais das plantas.
Outros usos da cavalinha: chá e tradição
Esta planta tem também uso tradicional em fitoterapia. O chá, feito com a planta seca, é usado como diurético suave, e a tradição atribui-lhe ação anti-inflamatória e utilidade para as unhas e para os ossos. As provas científicas para o emagrecimento ou para o tratamento de pedra nos rins são fracas, e este tema deve ser conversado com um médico ou farmacêutico.
O chá não é recomendado na gravidez, na amamentação e em pessoas com problemas de coração ou de rins, e não deve ser bebido durante muito tempo. Para chá, use apenas Equisetum arvense bem identificada, de origem fiável.
Perguntas frequentes
Posso fazer extrato de cavalinha com planta seca?
Sim. Use 75 g de planta seca por cada 5 litros de água e siga exatamente o mesmo processo de molho, fervura, arrefecimento e coagem.
Quanto tempo demora o extrato de cavalinha a fazer efeito?
Como preventivo, o efeito do extrato de cavalinha constrói-se ao longo de semanas de aplicações regulares. Em plantas já doentes, verifique a evolução ao fim de duas semanas de tratamento.
Posso pulverizar extrato de cavalinha em todas as plantas?
Na maioria das culturas sim, mas teste sempre em poucas folhas e espere um dia. Em plântulas e folhas muito tenras, dilua para metade.
O extrato de cavalinha faz mal às abelhas?
Não é conhecido como tóxico para as abelhas, mas evite pulverizar flores abertas e aplique só ao fim da tarde, quando os polinizadores já se recolheram.
Posso fazer extrato de cavalinha com a que nasce no meu terreno?
Pode, desde que confirme que é Equisetum arvense e que a zona não recebeu herbicidas ou poluição. Em caso de dúvida, peça ajuda a um viveirista ou compre a planta seca.
Conclusão
Esta planta é uma aliada barata e fácil de preparar para proteger a horta de modo biológico, sobretudo quando usada cedo e com regularidade. Cultive-a em vaso, prepare o extrato de cavalinha com calma, dilua a 20% e pulverize ao fim da tarde, lembrando que é um complemento e não um substituto de bons hábitos como o arejamento e a rega ao pé.
Se quer continuar a reforçar a horta de modo biológico, leia também Como usar o Óleo de Neem na horta e Como fazer Chorume de Urtigas, dois bons complementos para o extrato de cavalinha.



























