Os insetos auxiliares na horta são os insetos e ácaros que se alimentam de pragas ou as parasitam, reduzindo o número de afídeos, lagartas, tripes, ácaros e mosca-branca sem qualquer tratamento. Na horta biológica, protegê-los e dar-lhes alimento, água e abrigo é a forma mais barata e duradoura de manter as pragas sob controlo.
Se já viu uma joaninha a limpar uma couve ou uma larva minúscula a devorar afídeos num rebento de favas, já assistiu ao trabalho deles. Neste artigo ficará a saber como se dividem, que pragas combate cada grupo e o que pode fazer, numa varanda, num quintal ou numa horta comunitária, para que fiquem e trabalhem por si.
Tópicos neste artigo
Insetos auxiliares na horta: o que são e porque a horta precisa deles
Existem alguns insetos que podem ser muito prejudiciais para as culturas da horta. Devido à sua elevada capacidade de reprodução, em pouco tempo podem dar origem a uma descendência de milhões. Felizmente existem mecanismos naturais de regulação que limitam a sua proliferação.
Um desses mecanismos reguladores é formado por um complexo de insetos, ácaros, fungos, aves, bactérias e outros organismos auxiliares, que contribuem para a diminuição considerável da população das pragas das culturas.
Cada auxiliar tem a sua função e o equilíbrio final obtido na limitação natural das pragas resulta da atuação e interação de todos estes organismos úteis à agricultura. São um recurso natural gratuito e renovável, presente em todos os ecossistemas agrícolas. A presença dos auxiliares deve, por isso, ser tida em conta. É essencial proteger e potenciar o incremento das populações de auxiliares e dos seus habitats.
Porque funcionam melhor do que qualquer tratamento
Um tratamento atua num dia e deixa de atuar. Os insetos auxiliares na horta ficam, reproduzem-se e procuram as pragas mesmo nos cantos da horta onde nunca pensou em pulverizar. Além disso, as pragas não criam resistência a um predador da mesma forma que a criam a um produto aplicado repetidamente.
Um equilíbrio, não uma eliminação
Há uma regra que muda a forma de olhar para a horta: os insetos auxiliares na horta precisam de presas para se instalarem. Se eliminar todos os afídeos de uma cultura, as larvas de joaninha e de sirfídeo não têm que comer e vão-se embora. O objetivo não é uma horta sem uma única praga, é uma horta onde as pragas nunca passam do ponto em que causam dano. Uma pequena colónia de afídeos num rebento é muitas vezes o convite de que as joaninhas e as crisopas precisavam.
Outros aliados além dos insetos
Os insetos auxiliares na horta não trabalham sozinhos. As aranhas caçam à espreita e em teia, os sapos e as osgas comem lesmas e insetos noturnos, os ouriços-cacheiros limpam caracóis e as aves insetívoras, como os chapins e as andorinhas, consomem enormes quantidades de lagartas e insetos voadores. Os fungos e as bactérias entomopatogénicos completam o grupo. Quanto mais diversa for a vida na sua horta, mais estável será o controlo.
Predadores e parasitoides: como atuam os insetos auxiliares na horta
Os ácaros e insetos auxiliares da agricultura podem dividir-se em dois grandes grupos, conforme o modo como atuam: os parasitoides e os predadores.
Parasitoides
Os parasitoides são insetos de tamanho muito reduzido, inferior ao dos hospedeiros e reproduzem-se normalmente à custa de um só inseto parasitado, ao qual provocam a morte. A maioria dos parasitoides são muito especializados, parasitando apenas uma espécie ou grupo de espécies bem definidos.
Como reconhecer o trabalho de um parasitoide: um afídeo parasitado incha, endurece e fica dourado ou acastanhado, as chamadas «múmias». Perto de uma couve, os pequenos casulos amarelos agrupados junto a uma lagarta morta pertencem a uma vespa do género Cotesia. Se vir isto, não destrua nada: a próxima geração de parasitoides está lá dentro. Pode saber mais em vespas parasitoides na horta.
Predadores
Os predadores têm vida livre em todos os estádios do seu desenvolvimento. Atingem dimensões relativamente elevadas, por vezes maiores que os insetos e ácaros que lhes servem de alimento e têm necessidade de consumir um grande número de presas para completarem o seu desenvolvimento. A maioria dos predadores são insetos e ácaros polífagos (que comem de tudo), embora alguns tenham preferências alimentares.
Joaninhas, crisopas, sirfídeos, percevejos predadores, tesourinhas e escaravelhos do solo são os predadores mais comuns nas hortas portuguesas. As fichas da joaninha e da crisopa mostram em pormenor como reconhecê-las em todas as fases.

Louva-a-deus: um predador generalista
O louva-a-deus (Mantis religiosa) é um predador de emboscada que caça moscas, gafanhotos, grilos e lagartas. Conta como um dos insetos auxiliares da horta, mas com reservas: não distingue pragas de aliados e também come joaninhas, sirfídeos e abelhas, por isso o seu efeito no controlo de pragas é pequeno. Se aparecer um na sua horta, deixe-o ficar, mas não conte com ele como solução, e não compensa comprar oótecas para libertar. Se encontrar uma ooteca, uma massa espumosa e endurecida, de cor bege, presa a um caule ou a um muro, não a retire.
Ácaros auxiliares
Os ácaros auxiliares são sempre predadores, alimentando-se sobretudo de ácaros fitófagos, mas também de diversos insetos e mesmo de pólen e fungos, em certos períodos de carência de presas.
Os ácaros predadores são tão pequenos que quase nunca os vemos, mas são decisivos contra o aranhiço-vermelho. Encontra tudo no artigo ácaros predadores na horta.
Ciclo de vida: o que procurar em cada fase
A maior parte dos insetos auxiliares na horta passa por quatro fases: ovo, larva, pupa e adulto. O erro mais comum é olhar só para o adulto. Em joaninhas, crisopas e sirfídeos, é a larva que mais caça. A larva da joaninha parece um pequeno jacaré escuro com manchas laranja, a da crisopa é alongada e com mandíbulas em forma de pinça, a do sirfídeo é uma lagartinha mole, sem patas, de cor esverdeada ou translúcida. Já os adultos de crisopas, sirfídeos e de muitas vespas parasitoides alimentam-se de néctar e pólen, e é por isso que as flores fazem toda a diferença.
Que pragas controla cada um dos insetos auxiliares na horta
Cada grupo de insetos auxiliares na horta tem presas preferidas. Os cartões seguintes resumem as pragas que combatem, que fase é a mais útil e o que pode fazer para os atrair. Onde existe ficha própria no site, encontra a ligação no cartão.
Controla: afídeos (piolhos), cochonilhas e ácaros.
Fase útil: larvas e adultos são predadores.
Como atrair: flores pequenas, vegetação espontânea nas bordaduras e abrigo no inverno.
Ler a ficha das joaninhasControla: afídeos, tripes, ácaros e ovos de pequenas pragas.
Fase útil: as larvas são as grandes predadoras; os adultos alimentam-se de néctar, pólen e melada.
Como atrair: flores com néctar acessível e abrigos secos para o inverno.
Ler a ficha da crisopaControla: afídeos, sobretudo em colónias densas.
Fase útil: as larvas predam; os adultos, que parecem pequenas vespas, polinizam.
Como atrair: flores abertas e pouco profundas, como coentros, endro e alisso-marítimo.
Ler a ficha dos SirfídeosControla: lesmas pequenas, ovos e larvas de pragas, pupas no solo.
Fase útil: larvas e adultos caçam à superfície do solo, sobretudo à noite.
Como atrair: solo coberto com mulch, bordaduras com ervas altas e o mínimo de mobilização do solo.
Controla: tripes, ácaros, ovos de lagartas e pequenos afídeos.
Fase útil: ninfas e adultos são predadores.
Como atrair: plantas com flor ao longo de toda a estação, incluindo vegetação espontânea e sebes.
Controla: afídeos, mosca-branca e lagartas da couve.
Fase útil: a larva desenvolve-se dentro do hospedeiro; o adulto procura novos hospedeiros e alimenta-se de néctar.
Como atrair: flores muito pequenas (umbelíferas) e nenhum inseticida, mesmo biológico, sem necessidade.
Ler a ficha das vespas parasitoidesControla: aranhiço-vermelho, tripes e outros ácaros fitófagos.
Fase útil: ninfas e adultos, na face inferior das folhas.
Como atrair: humidade ambiente moderada, folhagem sem resíduos e pólen disponível em períodos de falta de presas.
Ler a ficha dos ácaros predadoresControla: afídeos, ovos de insetos e pequenas lagartas, sobretudo à noite.
Fase útil: ninfas e adultos. Atenção: em populações muito altas podem roer frutos e flores moles.
Como atrair: vasos virados com aparas de madeira, longe das culturas mais sensíveis.
Como usar esta informação na prática
Quando aparecer uma praga, identifique-a primeiro e só depois decida o que fazer. Perante afídeos, por exemplo, vale a pena esperar alguns dias e procurar larvas de joaninha, de sirfídeo e múmias antes de intervir. Se os insetos auxiliares na horta estiverem presentes, a colónia diminui sozinha. Para identificar a praga, os artigos sobre afídeos, mosca-branca, mosca-minadora e aranhiço-vermelho ajudam a perceber qual dos auxiliares dos cartões acima está a trabalhar.
Libertar auxiliares comprados: quando faz sentido
Existem insetos auxiliares na horta que se podem comprar para libertar, como o ácaro predador Phytoseiulus persimilis contra o aranhiço-vermelho, a vespa Encarsia formosa contra a mosca-branca ou larvas de crisopa contra os pulgões e a cochonilha algodão. Funcionam melhor em espaços fechados, como um pequeno estufim doméstico ou uma mini-estufa de varanda, onde não se dispersam. Numa horta ao ar livre, o investimento compensa mais em flores e abrigos do que em libertações, porque os auxiliares que chegam sozinhos ficam durante toda a estação. Se desejar experimentar, pode consultar a lista de compras recomendadas em baixo.
Como atrair e proteger os insetos auxiliares na horta
Sabemos que numa horta biológica não são admitidos inseticidas de síntese. Por si só, isso já contribui para proteger os auxiliares. Contudo, os habitats e fontes de alimento não podem ser desconsiderados. As sebes, os bosques, beiradas de campos e taludes revestidos de vegetação espontânea constituem bons reservatórios de auxiliares, a partir dos quais estes insetos podem colonizar as culturas vizinhas.
Do mesmo modo, a vegetação natural existente e mantida nas imediações dos terrenos cultivados, nos caminhos e muros, proporciona também alimentação para os auxiliares, nos períodos em que o alimento é pouco abundante no interior das culturas. Estes locais fornecem igualmente bons abrigos para a passagem dos períodos desfavoráveis do inverno. Os pomares, vinhas e outras culturas rodeadas de sebes vivas e de bosques ou floresta apresentam também uma grande diversidade e densidade de insetos.
Flores que alimentam os adultos
Os adultos de muitos insetos auxiliares precisam de néctar e pólen para viver e pôr ovos. As flores pequenas, abertas e pouco profundas são as mais úteis, porque a boca curta destes insetos não alcança flores tubulares. Dê prioridade ao coentro, ao endro, à salsa e à cenoura deixados a florir, ao alisso-marítimo, à calêndula, à borragem, à facélia, ao tagete e à mil-folhas. Semeados de forma escalonada, garantem flor da primavera ao outono. Uma mistura de sementes de flores para insetos benéficos poupa tempo e dá cobertura de floração em várias épocas.

Água limpa e acessível
Os auxiliares pequenos afogam-se com facilidade num recipiente fundo. Coloque um prato raso com pedras ou seixos fora da água, para que possam pousar, e mantenha-o sempre com um pouco de água. Um bebedouro raso para insetos já pensado para este fim evita improvisos e é útil em dias de calor, sobretudo em varandas.
Abrigo e hotéis de insetos
Todos precisam de um sítio seguro para o inverno: cascas de árvore soltas, pedras empilhadas, caules ocos, madeira com furos e folhas secas deixadas num canto. Se preferir um abrigo pronto, escolha um hotel de insetos em madeira com canudos de vários diâmetros e compartimentos diferentes, e instale-o a cerca de um metro do chão, virado a sul ou sudeste, protegido da chuva e fixo, para não balançar com o vento. Há mais ideias de construção em exemplos de abrigos para insetos auxiliares da horta.
Menos mobilização do solo, mais cobertura
Os escaravelhos do solo e muitas pupas passam o inverno e parte do ano debaixo da superfície. Mobilizar o solo em profundidade destrói-lhes o abrigo. Uma cobertura de mulch protege-os e mantém a humidade, e deixar uma faixa de erva alta no limite da horta dá-lhes um corredor seguro.
Evitar tratamentos que também matam auxiliares
Mesmo os produtos permitidos em agricultura biológica podem afetar auxiliares quando pulverizados sem necessidade. Os inseticidas naturais de largo espetro, como as piretrinas, matam sem distinguir pragas de aliados. Se for mesmo preciso intervir, escolha o produto mais seletivo, trate só a zona afetada, ao fim do dia, quando os polinizadores e auxiliares já se recolheram, e nunca sobre plantas em flor. Antes de recorrer a um tratamento, veja as alternativas em inseticidas naturais para hortas caseiras.
Horta em vaso e varanda
Mesmo numa varanda é possível atrair insetos auxiliares. Uma jardineira com alisso-marítimo e coentros em flor, um vaso com calêndulas e um pequeno hotel fixo à parede já trazem sirfídeos, crisopas e joaninhas. Em prédios, as plantas em flor funcionam como «paragens» para os que atravessam o espaço urbano. Um hotel de insetos e um bebedouro para insetos são uma solução prática para espaços pequenos.

Plantas companheiras e antagónicas dos insetos auxiliares
Plantas companheiras
As plantas que atraem insetos auxiliares funcionam como companheiras de quase todas as hortícolas. O alisso-marítimo entre alfaces e couves, a calêndula e o tagete junto de tomateiros e pimenteiros, o coentro e o endro em flor entre cenouras e cebolas e a borragem ao lado das cucurbitáceas e morangueiros trazem auxiliares para junto das culturas que mais precisam. Pode consultar combinações em plantas companheiras e antagónicas.
Plantas antagónicas
Nem todas as flores são boas vizinhas. O funcho, por exemplo, liberta substâncias que inibem o crescimento de muitas hortícolas vizinhas e deve ficar num canto à parte, onde as suas flores continuam a alimentar auxiliares sem prejudicar as culturas. O absinto tem comportamento semelhante e pede espaço próprio. Já as plantas muito repelentes, usadas em excesso, podem afastar também os auxiliares, pelo que convém mantê-las em quantidade moderada. Mais sobre este ponto em plantas repelentes de insetos para a horta.
Sabia que…
Os sirfídeos adultos têm riscas amarelas e pretas e imitam vespas e abelhas para enganar predadores, mas não têm ferrão e são completamente inofensivos. Algumas espécies migram em grande número entre regiões da Europa, e estudos de monitorização estimaram milhares de milhões de sirfídeos em migração por ano no sul de Inglaterra. É possível que o sirfídeo que vê a pousar no coentro da sua horta tenha percorrido centenas de quilómetros.
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Perguntas frequentes sobre insetos auxiliares na horta
O que são insetos auxiliares?
São insetos e ácaros que se alimentam de pragas ou as parasitam, e que ajudam a manter a horta em equilíbrio. Dividem-se em predadores, que caçam, e parasitoides, que se desenvolvem dentro de outro inseto.
Quais são os principais insetos auxiliares da horta?
As joaninhas, as crisopas, os sirfídeos, os escaravelhos do solo, os percevejos predadores, as vespas parasitoides e os ácaros predadores. Cada um combate pragas diferentes.
Como atrair insetos auxiliares para a horta?
Semeie flores pequenas e abertas, como o coentro, o endro, o alisso-marítimo e a calêndula, ofereça água rasa, deixe abrigos de inverno e evite tratamentos desnecessários, mesmo os biológicos.
Os insetos auxiliares podem ser comprados?
Sim, existem ácaros predadores, vespas parasitoides e larvas de crisopa para libertar. Funcionam melhor em espaços fechados, como estufins e mini-estufas de varanda.
As tesourinhas são auxiliares ou pragas?
São as duas coisas. Comem afídeos e ovos de pragas, mas em populações muito grandes podem roer frutos e flores moles. Convém manter o seu número equilibrado, sem as eliminar.
Posso usar inseticidas naturais sem prejudicar os auxiliares?
Só com cuidado. Os produtos de largo espetro matam auxiliares e pragas. Use-os só em último caso, no foco do problema, ao fim do dia e sem plantas em flor.
Os insetos auxiliares funcionam numa varanda?
Funcionam. Com flores, um pequeno hotel e água rasa, aparecem sirfídeos, crisopas e joaninhas mesmo em varandas altas.
O louva-a-deus é bom para a horta?
Só em parte. Come pragas, mas também come joaninhas, sirfídeos e abelhas, e o seu efeito no controlo de pragas é pequeno. Deixe-o ficar se aparecer, mas não conte com ele como solução.
Conclusão
Os insetos auxiliares na horta são a primeira linha de defesa da horta biológica: trabalham de graça, todos os dias, e só pedem alimento, água e abrigo. Comece por semear flores, deixe uma bordadura sem mobilizar e tenha paciência perante as primeiras colónias de pragas. Com o tempo, vai ver os insetos auxiliares a instalarem-se e a horta a precisar de cada vez menos intervenções.
Continue a explorar o tema em joaninhas, crisopa, vespas parasitoides na horta, ácaros predadores na horta e exemplos de abrigos para insetos auxiliares da horta.




























