O chorume de urtigas é um adubo líquido e repelente natural que se obtém deixando fermentar 1 kg de urtigas frescas em 10 L de água durante cerca de 1 a 3 semanas, consoante a temperatura. Depois de coado, dilui-se a 5–20% em água para regar o solo ou pulverizar as folhas, fornecendo azoto e minerais às plantas e ajudando a afastar pulgões e ácaros.
Bem preparado, o chorume de urtigas custa quase nada e resolve dois problemas ao mesmo tempo: alimenta as plantas e reforça a sua defesa contra pragas. Mal preparado, cheira demasiado, queima folhas ou simplesmente não faz efeito. Neste guia encontra a receita passo a passo, o tempo de fermentação por temperatura, a tabela de diluições para cada uso, os cuidados de segurança e os erros que mais se repetem.
Tópicos neste artigo
O que é o chorume de urtigas e para que serve
O chorume de urtigas é um extrato líquido fermentado, obtido a partir das folhas e dos caules da urtiga. É uma prática antiga da agricultura biológica, valorizada porque aproveita uma planta espontânea, abundante e gratuita. Durante a fermentação, os microrganismos decompõem a planta e libertam para a água os nutrientes e os compostos que ela contém.
Adubo líquido. O chorume de urtigas é rico em azoto, que estimula o crescimento das folhas, e contém também potássio, ferro, magnésio e cálcio. Funciona como um adubo de ação rápida, ideal para plantas em fase de crescimento vegetativo, como couves, alfaces, espinafres e abóboras.
Repelente e inseticida natural. Tem fama de afastar pulgões e ácaros. Convém ser realista: o chorume de urtigas dificulta a vida a estas pragas e deixa a planta mais robusta, mas não elimina uma infestação já instalada. Dá melhores resultados como prevenção, em aplicações repetidas e regulares.
Ativador de compostagem. Diluído e regado sobre o monte, o chorume de urtigas fornece azoto e acelera a decomposição dos restos castanhos e secos, como palha triturada, folhas e cartão.
O que não é. Não é um adubo completo, porque tem pouco fósforo. Por isso, o ideal é alternar com composto, estrume curtido ou outros biofertilizantes caseiros. Se gosta de preparar as suas próprias soluções, vale a pena conhecer também outros extratos vegetais que ajudam a manter a horta saudável de modo biológico.
Características das urtigas que importam para o chorume de urtigas
Existem várias espécies e subespécies de urtigas. Em Portugal, as mais comuns são a urtiga-comum (Urtica dioica) e a urtiga-menor (Urtica urens). Ambas servem para fazer chorume de urtigas, e é fácil encontrá-las perto de zonas habitadas, campos cultivados e bermas de caminhos, onde o solo é rico em azoto.
A urtiga-menor é anual, mais pequena e de folhas verdes e serradas, mas é bastante mais urticante. A urtiga-comum é perene, pode ultrapassar 1 m de altura e tem folhas verde-escuras, também serradas, com caules e folhas cobertos de pelos.
Os pelos urticantes. Os tricomas, distribuídos pelas folhas e pelo caule, funcionam como pequenas agulhas: ao mais leve toque, libertam histamina e outras substâncias irritantes, que provocam uma forte sensação de ardor. O chorume já pronto não pica, mas as urtigas frescas continuam a picar, pelo que a proteção é essencial na colheita e na preparação.
Quando e onde colher. Escolha plantas jovens, na primavera, e corte-as antes de formarem sementes, para não espalhar urtigas pela horta. Colha em locais limpos, longe de estradas movimentadas e de zonas onde tenham sido aplicados herbicidas.

Como fazer chorume de urtigas passo a passo
A preparação deve ser feita ao ar livre, com o recipiente afastado de janelas e de zonas de convívio, porque o cheiro é forte. Proteja sempre as mãos e os braços para evitar as “picadas”.
O que vai precisar.
- 1 kg de urtigas frescas (ou cerca de 200 g de urtigas secas).
- 10 L de água da chuva ou, pelo menos, sem cloro.
- Um recipiente grande, de plástico, madeira ou barro, mas nunca de metal. Um balde de plástico com tampa resolve bem, e é fácil de tapar e de limpar.
- Um pau de madeira para mexer.
- Luvas e roupa de mangas compridas. Um bom par de luvas de borracha de cano longo evita muitas dores de cabeça.
- Uma balança de cozinha digital para pesar as urtigas e manter sempre a mesma proporção entre a planta e a água.
Preparação.
- Corte as urtigas em pedaços de 5 a 10 cm. Quanto mais pequenos, mais depressa a fermentação arranca.
- Coloque-as no recipiente e cubra com a água, deixando cerca de um quarto do recipiente vazio, porque a espuma sobe durante a fermentação.
- Tape sem vedar totalmente, com uma tampa com furos ou um pano preso. Se possível, deixe à sombra.
- Mexa todos os dias ou, no mínimo, de dois em dois dias, para libertar os gases acumulados e oxigenar a mistura.
- A fermentação começa quando surgirem bolhas à superfície. Com o passar dos dias vai intensificar-se e o cheiro torna-se muito desagradável. É bom sinal.
- Quando já não houver bolhas nem espuma e o líquido estiver escuro, a fermentação terminou e o chorume de urtigas está pronto.
- Coe bem com um pano ou uma rede fina. Não devem ficar vestígios de planta, porque estragam o concentrado e reduzem a sua durabilidade. Os restos vão para o composto.
- Guarde em garrafões ou bidões bem identificados, em local fresco e sem luz solar. Nestas condições, o chorume de urtigas pode durar vários meses.
Como reduzir o cheiro. Um punhado de pó de rocha ajuda a suavizar o odor. Se não tem espaço ou não quer “apreciar” o perfume, pode procurar formulações biológicas líquidas ou em pó, em lojas especializadas.

Tempo de fermentação do chorume de urtigas consoante a temperatura
O tempo de fermentação depende sobretudo do calor. Em dias quentes, o processo é rápido e o chorume de urtigas fica pronto em menos de uma semana. No inverno, pode demorar três semanas ou mais, e abaixo dos 10 °C quase para. A tabela seguinte serve de guia, mas o critério mais fiável é sempre o mesmo: sem bolhas, está pronto.
| Temperatura média | Tempo aproximado até ficar pronto |
|---|---|
| Abaixo de 10 °C | 3 semanas ou mais (a fermentação pode parar) |
| 10 a 15 °C | 14 a 21 dias |
| 15 a 20 °C | 10 a 14 dias |
| 20 a 25 °C | 6 a 10 dias |
| Acima de 25 °C | 3 a 6 dias |
Não deixe passar do ponto. Depois de terminada a fermentação, o líquido continua a mudar. Se o deixar semanas com as urtigas dentro, passa a cheirar a podre e perde qualidade. Assim que parar de borbulhar, coe e guarde.
Diluições e como usar o chorume de urtigas na horta
O chorume de urtigas nunca se aplica puro em plantas adultas, exceto em casos muito específicos. É concentrado e, sem diluir, pode queimar folhas e raízes. A tabela seguinte resume as diluições mais comuns para cada uso.
| Uso | Diluição | Quantidade de chorume para 10 L de água |
|---|---|---|
| Rega do solo e das raízes | 10 a 20% | 1 a 2 L |
| Aplicação foliar (pulverização) | 5 a 10% | 0,5 a 1 L |
| Repelente de pulgões e ácaros (macerado, sem fermentar) | 10 a 20% | 1 a 2 L |
| Germinação de sementes (imersão) | 20% | 2 L |
| Ativador de composto | 10 a 20% | 1 a 2 L |
Como estimulante foliar. Dilua a 5–10% (0,5 a 1 L de chorume para 10 L de água) e pulverize as folhas, de preferência ao fim da tarde. Repita a cada 10 a 15 dias durante a fase de crescimento. Um pulverizador de pressão de 2 litros é suficiente para uma horta familiar e cobre as folhas de modo uniforme.
Como estimulante do solo e das raízes. Dilua a 10–20% (1 a 2 L de chorume de urtigas para 10 L de água) e regue com o solo já húmido, para evitar choques nas raízes. Em plantas jovens ou recém-transplantadas, comece pela diluição mais baixa.
Contra pulgões e ácaros. Para este uso, o mais indicado é o macerado e não o fermentado: deixe as urtigas de molho apenas 12 horas, coe, dilua a 10–20% e pulverize sobre as plantas atacadas, inclusive a parte de baixo das folhas. Repita a cada poucos dias e teste primeiro numa folha.
Para favorecer a germinação das sementes. Mergulhe as sementes durante 12 horas em chorume de urtigas diluído a 20%. Evite o extrato puro, que pode danificar as sementes.
No oídio do tomateiro. O chorume de urtigas pode ser usado preventivamente, em pulverização foliar diluída a 5–10%, a cada 10 a 15 dias, desde o início da estação. Ajuda a reforçar as folhas, mas não cura o oídio já instalado: se a doença já apareceu, retire as folhas afetadas e combine com outros tratamentos biológicos.
Como ativador de compostagem. Regue o monte de composto com a diluição de 10–20%, sobretudo quando há muito material seco e pouca decomposição.
Regras de ouro
- Aplique ao fim do dia, nunca em pleno sol nem com vento forte.
- Evite pulverizar plantas em flor quando houver abelhas e outros polinizadores ativos.
- Não abuse: em excesso, o azoto deixa as plantas muito tenras e atrai ainda mais pulgões.
- Lave bem as hortaliças pulverizadas antes de as consumir.

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- Chorume de urtigas concentrado: Adequado para agricultura biológica em conformidade com as normas europeias em vigor. Produto de alto desempenho e fácil aplicação com uma dosagem orientativa de 15 a 30 ml por litro de água.
- Luvas de borracha de cano longo. Protegem das picadas e dos salpicos.
- Óculos de proteção. Cobrem também os olhos ao coar e ao diluir.
- Avental impermeável. Protege o corpo todo em preparações maiores.
- Balde de plástico com tampa: Feito de plástico resistente e de alta qualidade; inclui alças laterais para transporte confortável e fechos de metal.
- Balança de cozinha digital: Para pesar as urtigas e manter sempre a mesma proporção entre a planta e a água.
- Pulverizador a bateria de 2 L: Pulverizador eléctrico equipado com uma bateria recarregável con uma autonomia de até 3 horas. Ideal para pulverizações mais longas.
Segurança, armazenamento e enquadramento legal do chorume de urtigas
Segurança pessoal. Use luvas e mangas compridas na colheita e na preparação. Ao coar e ao diluir, proteja também os olhos contra salpicos. Guarde o chorume de urtigas fora do alcance de crianças e animais, em recipientes bem identificados, e nunca em garrafas de bebida sem rótulo claro.
Nota legal sobre substâncias de base. Na União Europeia, a urtiga (Urtica spp.) está aprovada desde 2017 como substância de base, através do Regulamento de Execução (UE) 2017/419, sujeita a condições de utilização definidas. Em caso de dúvida, sobretudo em atividade agrícola profissional, consulte a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV).
Plantas que beneficiam (e as que não gostam) de chorume de urtigas
O chorume de urtigas não é bom para tudo. Como é rico em azoto, favorece as plantas que querem folhas e prejudica as que não precisam dele.
Plantas que respondem bem. Couves e restantes brássicas, alfaces, espinafres, acelgas, abóboras, courgetes, pepinos, batateiras e milho. Nos tomateiros e nos pimenteiros, use-o apenas durante o crescimento, antes de a floração começar, porque o excesso de azoto dá muita folha e pouco fruto.
Plantas a evitar. Feijoeiros, ervilheiras e favas, porque as leguminosas fixam o seu próprio azoto e o excesso prejudica-as. Alhos, cebolas e alhos-franceses também respondem mal, segundo a tradição. O mesmo vale para qualquer planta em plena floração ou frutificação, que precisa mais de potássio do que de azoto.
As urtigas como planta companheira. Deixar um canto com urtigas junto a uma sebe ou a árvores de fruto traz vantagens: abrigam pulgões próprios da urtiga, que não atacam a horta, mas alimentam joaninhas e crisopas, e várias borboletas usam-nas como planta hospedeira. Corte-as sempre antes de formarem sementes, para não se espalharem.
Erros comuns ao preparar chorume de urtigas
Usar um recipiente de metal. A fermentação é ácida e corrói o metal, o que estraga o preparado. Prefira plástico, madeira ou barro.
Vedar totalmente o recipiente. Os gases da fermentação precisam de sair. Uma tampa bem fechada pode inchar ou rebentar.
Aplicar sem diluir. É o erro que mais queima folhas. Use sempre as diluições da tabela.

Sabia que…
As fibras da urtiga já serviram para fazer roupa. Durante a Primeira Guerra Mundial, com o algodão em falta, a Alemanha e o Império Austro-Húngaro recorreram também à fibra de urtiga para produzir tecidos, incluindo parte dos fardamentos militares.
Perguntas frequentes sobre chorume de urtigas
Quanto tempo demora a fazer chorume de urtigas?
Entre 3 dias e 3 semanas, consoante a temperatura. Em dias quentes, acima de 25 °C, o chorume de urtigas fica pronto em menos de uma semana. No inverno pode demorar três semanas ou mais. O sinal mais fiável é sempre o mesmo: quando deixam de surgir bolhas e espuma, a fermentação terminou.
Posso fazer chorume de urtigas com urtigas secas?
Sim. Use cerca de 200 g de urtigas secas por cada 10 L de água, o equivalente a 1 kg de urtigas frescas. O chorume de urtigas feito com plantas secas fermenta de modo semelhante e tem menos cheiro no início. Escolha urtigas secas de boa qualidade, sem bolor, e siga as mesmas regras de mexer e coar.
Como diluir o chorume de urtigas para regar?
Para regar o solo, dilua 1 a 2 L de chorume de urtigas em 10 L de água, ou seja, entre 10% e 20%. Regue com o solo já húmido, ao fim do dia, e repita a cada 10 a 15 dias. Em plantas jovens ou recém-transplantadas, comece sempre pela diluição mais fraca.
O chorume de urtigas serve para os tomateiros?
Sim, mas com moderação. Nos tomateiros, o chorume de urtigas ajuda no crescimento das folhas e pode ser usado preventivamente contra o oídio, em pulverização a 5–10%. Deve parar quando começa a floração, porque o excesso de azoto produz muita folha e pouco fruto. Nessa fase, prefira adubos ricos em potássio.
Quanto tempo dura o chorume de urtigas guardado?
Bem coado e guardado em recipientes fechados, num local fresco e sem luz, dura vários meses. Antes de usar, confirme o cheiro e o aspeto: se voltar a fazer espuma ou cheirar a podre, deite-o ao composto. O macerado de 12 horas, usado como repelente, deve ser aplicado logo.
Conclusão
O chorume de urtigas é uma das preparações caseiras mais úteis e baratas da horta biológica: alimenta as plantas, ajuda na prevenção de pragas e aproveita uma planta que muitas vezes é considerada uma infestante. Com as proporções certas, o tempo de fermentação adequado à temperatura e as diluições corretas para cada uso, torna-se um aliado seguro e fácil de repetir todos os anos.
Se quer continuar a aprender, veja também os nossos artigos sobre biofertilizantes caseiros, extratos vegetais e ervas daninhas, onde explicamos como aproveitar e controlar as urtigas na horta.




























