As borras de café são uma ótima forma de dar uma segunda vida ao café que bebe todos os dias. Fazem bem à horta quando usadas com moderação, de preferência compostadas ou bem misturadas com a terra: ajudam a melhorar a estrutura do solo e são um excelente ingrediente para o composto.
Quem bebe café em casa produz borras todos os dias, e é natural querer aproveitá-las na horta. Sobre este resíduo circulam muitas ideias, e algumas merecem ser vistas com mais calma. Por isso, juntámos o que dizem os estudos universitários, e mostramos como usar as borras de café na compostagem, no solo e nos vasos para tirar delas o melhor partido.
Tópicos neste artigo
Borras de café fazem bem às plantas? O que dizem os estudos
O que há de bom nas borras de café. As borras de café contêm uma quantidade significativa de azoto (nitrogénio), um dos macronutrientes mais importantes para o crescimento vegetal. Além disso, também são uma fonte de potássio, fósforo, cálcio, magnésio e outros micronutrientes essenciais. As quantidades de cada nutriente são, no entanto, pequenas. O azoto, cerca de 2% do material, encontra-se sobretudo em formas orgânicas, que as plantas só conseguem aproveitar depois de os microrganismos do solo as decomporem. Por isso, as borras funcionam muito bem como melhorador do solo e fertilizante de libertação lenta, um excelente complemento ao restante adubo da horta. Para perceber o papel de cada elemento, veja as funções dos nutrientes nas plantas.
O que a investigação mostrou. Em 2016, dois investigadores da Universidade de Melbourne, Hardgrove e Livesley, testaram a aplicação direta de borras de café frescas (não compostadas) em brócolos, alho-francês, rabanetes, violas e girassóis, em vários tipos de solo e com ou sem adubo. As plantas cresceram um pouco menos do que as plantas sem borras, sem relação com o pH nem com o azoto, e os autores sugerem que as borras frescas contêm compostos que as plantas toleram pior. O mesmo estudo registou uma vantagem: o solo com borras reteve mais água. A conclusão é simples: o modo de usar as borras faz toda a diferença, e o composto é o melhor ponto de partida.
Borras de café: ideias comuns e o que se sabe
Estas são seis ideias muito repetidas sobre as borras de café na horta, e o que a evidência disponível indica.
«As borras acidificam o solo.»
NA PRÁTICADepois da infusão, as borras ficam perto do pH neutro, cerca de 6,5 a 6,8, porque os ácidos do café passam sobretudo para a bebida. Por isso, a influência no pH do solo é ligeira e passageira.
«As borras afastam lesmas e caracóis.»
NA PRÁTICAA cafeína em solução forte afasta as lesmas, mas as borras têm bastante menos cafeína, e os ensaios com barreiras de borras dão resultados variáveis. Podem ser um pequeno reforço, em conjunto com outras medidas.
«As borras afastam as formigas.»
NA PRÁTICANão há evidência clara a favor. Na horta, as formigas costumam aparecer por causa dos pulgões, e é aí que vale a pena atuar. Veja formigas na horta: como controlar sem produtos químicos.
«As borras são um adubo completo.»
NA PRÁTICATêm cerca de 2% de azoto, de libertação lenta, e uma pequena parte de outros nutrientes. São um bom complemento do composto, do estrume ou de outro fertilizante orgânico.
«As borras podem ser usadas frescas, à vontade.»
NA PRÁTICADão-se melhor compostadas ou misturadas com a terra em camada fina. Em camada espessa, tendem a compactar-se e a dificultar a passagem da água.
«Quantas mais borras no composto, melhor.»
NA PRÁTICAO ideal é ficar até cerca de 20% do volume. São um material «verde», rico em azoto, e combinam bem com material «castanho», como folhas secas.
Como usar as borras de café na compostagem
A compostagem é o caminho mais seguro para aproveitar as borras de café, porque a decomposição torna-as mais suaves para as plantas e dá um composto fácil de aplicar. Além disso, também podem ser adicionadas ao composto, onde irão decompor-se ao longo do tempo, enriquecendo-o com nutrientes valiosos.
Proporção certa. Como referência, os serviços de extensão universitários indicam um máximo de cerca de 20% de borras no volume total do composto. Uma mistura simples é três partes de folhas secas, uma de aparas de relva frescas e uma de borras, medidas em volume.
Equilíbrio entre verdes e castanhos. Não se deixe enganar pela cor. São consideradas um material de compostagem “verde”. Por isso, deve ter em atenção que precisa equilibrar com algum material “castanho”. O material castanho, como folhas secas, cartão e aparas de poda, traz carbono e arejamento. Certifique-se de as misturar com outros materiais compostáveis, como restos de alimentos, folhas secas e aparas de relva, para garantir uma decomposição equilibrada e aeração adequada do composto.
Papel de filtro e bolores. O papel de filtro pode ir para o composto junto com as borras e decompõe-se bem. Se aparecerem bolores, não se preocupe: são inofensivos no composto e fazem parte da decomposição.
Minhocário. Num vermicompostor, use as borras em pequenas quantidades e misturadas com outros resíduos, nunca como único alimento das minhocas. O nosso guia de vermicompostagem explica o método.
Compostor. Quem ainda não tem onde compostar pode começar com este compostor de jardim com tampa e portinhola de esvaziamento, que mantém a humidade e facilita o arejamento. Para conhecer o método completo, veja o que é a compostagem e os materiais que pode usar na compostagem.

Como aplicar as borras de café diretamente no solo
Se preferir aplicar as borras de café diretamente no canteiro, a forma e a quantidade fazem toda a diferença.
Seque antes de aplicar. Espalhe as borras numa camada fina, sobre um tabuleiro ou jornal, durante um ou dois dias. Secas, não formam grumos nem bolor e misturam-se melhor com a terra.
Quantidade. A recomendação da cientista do solo Linda Brewer, da Oregon State University é incorporar cerca de 1 cm de borras nos primeiros 10 cm de solo. É uma boa referência para começar; depois, observe como as plantas reagem.
Misture com antecedência, não junto às raízes. Prepare o canteiro com alguma antecedência e misture as borras com a terra, em vez de as colocar ao pé das raízes. Nas sementeiras e nas plantas recém-transplantadas, é melhor esperar, porque são as fases mais delicadas.
Cobertura do solo. Como cobertura do solo, as borras funcionam melhor com ajuda: sozinhas, tendem a compactar-se e a formar uma crosta que dificulta a entrada da água. Se as quiser usar à superfície, aplique uma camada fina e cubra-a com folhas secas ou casca de pinheiro.
Chá de borras. O “chá” de borras, feito deixando-as de molho em água, é mais uma rega aromática do que um adubo. Se o quiser experimentar, dilua-o até ficar com a cor de um chá fraco, regue apenas o solo e deixe as sementeiras para mais tarde.
Um complemento a sério. Para dar às plantas uma nutrição completa, junte às borras um fertilizante orgânico fiável, como este húmus de minhoca de boa qualidade, que fornece nutrientes de forma equilibrada e melhora a estrutura da terra.

Borras de café e pH do solo: o que esperar
Como vimos, as borras usadas estão perto do pH neutro, e o pH final do solo depende sobretudo do próprio solo. Por isso, quem cultiva plantas que exigem solo ácido, como os mirtilos, não deve contar apenas com as borras para o baixar. Estas plantas precisam de um pH de cerca de 4,5 a 5,5, que se consegue com substrato ácido, casca de pinheiro e, quando necessário, enxofre elementar, sempre com medições regulares.
É importante monitorizar regularmente o pH do solo e evitar o uso excessivo. Para medir, um medidor digital de pH para solo 6 em 1 ou um kit de testes simples ajuda a decidir com dados em vez de palpites.
Borras de café como repelente de pragas: o que se sabe
A ideia de que as borras de café protegem a horta de pragas é muito popular, e vale a pena ver o que a investigação diz.
Lesmas e caracóis. Está demonstrado que uma solução de cafeína a 1% a 2% faz as lesmas abandonar o solo e que pode matá-las. As borras contêm bastante menos cafeína do que essa concentração, por isso os resultados com barreiras de borras são variáveis: há ensaios com alguma redução de danos e outros sem efeito. Para um problema mais sério, junte-as a medidas com resultados mais consistentes, como a recolha ao entardecer, as armadilhas e as iscas compatíveis com cultivo biológico. O nosso guia sobre lesmas e caracóis explica como.
Formigas. Não há evidência clara de que as borras afastem formigas. Na horta, aparecem muitas vezes por causa dos pulgões, de que “cuidam” para recolher a melada, por isso o melhor é atuar na origem. Veja formigas na horta: como controlar sem produtos químicos.
Plantas que gostam e plantas mais sensíveis às borras de café
Nem todas as culturas reagem da mesma forma às borras, por isso convém ir com calma.
Plantas mais sensíveis. As sementeiras e as plantas jovens são as mais sensíveis às borras frescas. Os brócolos, alho-francês, rabanetes e girassóis cresceram um pouco menos com borras não compostadas. Por exemplo, os tomates não costumam reagir muito bem quando pomos borras ao pé das raízes.
Plantas que exigem solo ácido. Mirtilos, azáleas, camélias e hortênsias azuis precisam de solo ácido, mas as borras não costumam chegar para isso. Plante-as em substrato ácido adequado e use as borras, compostadas, como complemento orgânico.
Vasos e varandas. Em vasos, as borras dão-se melhor misturadas com o substrato do que à superfície, onde formam crosta, retêm humidade e favorecem bolores. Se quiser aproveitá-las, junte uma pequena proporção de borras compostadas ao substrato. Para escolher uma boa base, veja o melhor substrato para vasos e canteiros elevados em hortas e varandas.
Cuidados a ter com as borras de café
Com as borras de café, três coisas ajudam a obter bons resultados: a quantidade, o estado das borras (frescas ou compostadas) e a forma de aplicação.
Quantidade certa: menos é mais. Lembre-se de não exagerar na quantidade de borras de café, pois uma camada muito espessa pode prejudicar o crescimento das plantas ao restringir o acesso à água e ao ar.

Diversifique a sua fonte de nutrientes: Embora as borras sejam uma fonte valiosa de nutrientes, elas não devem ser a sua única fonte de fertilizantes. Certifique-se de complementar o uso de borras com outros materiais orgânicos, como composto, esterco e adubo verde, para garantir uma nutrição equilibrada para as suas plantas. Outros materiais têm efeitos muito diferentes: a cinza de madeira, por exemplo, tende a subir o pH do solo e deve ser usada com critério. Para planear a nutrição de todo o ano, veja o nosso guia de fertilização da horta mês a mês.
Misture bem no solo: Ao adicionar as borras ao solo, certifique-se de misturá-las bem. Isso ajudará a distribuir os nutrientes de forma mais uniforme e evitará danos às raízes das plantas.
Escolha borras limpas: prefira borras sem leite, açúcar ou restos de comida, que atraem moscas e roedores, e retire as cápsulas de alumínio ou plástico antes de as usar.
Animais domésticos: convém manter as borras e o composto fora do alcance de cães e gatos, porque a cafeína não lhes faz bem.
Como guardar e secar as borras de café
Guarde as borras de café do dia a dia num recipiente aberto ou num tabuleiro, em local arejado, até secarem. Borras húmidas e fechadas num saco criam bolor em poucos dias. Depois de secas, pode guardá-las num balde com tampa até ter composto ou canteiro a preparar.
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- Compostor de jardim simples, com tampa e portinhola de esvaziamento. Para aproveitar as borras de café, restos de cozinha e folhas na compostagem, um compostor de jardim é uma solução prática.
- Medidor digital de solo (pH e humidade). Para acompanhar as condições do solo, um medidor digital de pH e humidade pode ser um complemento útil.
- Saco de estrume de cavalo compostado. Para melhorar o teor de matéria orgânica do solo, o estrume de cavalo compostado pode complementar outras práticas de fertilização.
- Húmus de minhoca sólido. O húmus de minhoca é uma opção interessante para complementar a matéria orgânica disponível no solo.
- Termómetro para compostagem. Para quem pretende acompanhar melhor o processo, um termómetro com sonda longa permite medir a temperatura no interior da pilha e perceber melhor a evolução da compostagem.
- Balde para resíduos orgânicos com tampa. Uma solução prática para guardar temporariamente as borras de café e outros resíduos vegetais antes de os levar para o compostor. Convém evitar o armazenamento prolongado de borras húmidas, que podem desenvolver bolor.
Sabia que…
As borras de café frescas são um dos substratos mais usados para cultivar cogumelos-ostra em casa. O calor da infusão ajuda a que cheguem com poucos microrganismos concorrentes, desde que sejam usadas nas primeiras horas. Depois da colheita dos cogumelos, o substrato gasto pode ir para o composto.
Perguntas frequentes
As borras de café fazem bem às plantas?
Sim, desde que usadas com moderação e, de preferência, compostadas. Melhoram a estrutura do solo e trazem algum azoto e outros nutrientes, e funcionam melhor como complemento do restante adubo.
As borras de café acidificam o solo?
Pouco. Depois da infusão, as borras ficam perto do pH neutro, cerca de 6,5 a 6,8, e qualquer alteração no solo é ligeira e passageira. Para plantas que gostam de solo ácido, como os mirtilos, convém recorrer a substrato ácido.
As borras de café afastam lesmas e caracóis?
Não de forma consistente. A cafeína em solução forte afasta as lesmas, mas as borras têm bastante menos cafeína e os resultados são variáveis. Podem ser um pequeno reforço, junto com outras medidas.
Posso pôr borras de café nos vasos?
Sim, misturadas com o substrato e em pequena proporção, de preferência compostadas. À superfície do vaso, tendem a formar crosta e bolores.
Quantas borras de café posso pôr no composto?
Até cerca de 20% do volume total. Misture-as com material castanho, como folhas secas, e com outros resíduos verdes, para manter a decomposição equilibrada.
Posso usar borras nos tomateiros?
Dão-se melhor compostadas e misturadas com o composto, em vez de em camada junto ao caule.
Posso dar borras às plantas todos os dias?
Não é necessário. Guarde-as, seque-as e use-as no composto ou em pequenas quantidades bem misturadas com o solo, sem acumular camadas.
Conclusão
As borras de café são um ótimo recurso para a horta biológica: reaproveitam um resíduo que seria deitado fora e ajudam a dar estrutura à terra. Dão-se melhor no composto ou, em pequenas quantidades, bem misturadas com o solo. Meça o pH quando tiver dúvidas, complemente com composto ou outro fertilizante orgânico e lembre-se de que, com as borras, a moderação é o segredo.
Para continuar a melhorar o solo da sua horta, veja também O que é a Compostagem, Materiais que pode usar na Compostagem, Como fazer composto com as folhas do Outono e Vermicompostagem – Guia prático para produzir adubo biológico em casa.



























